#RolounaRede


#rolounarede: as questões emergentes, o papel profissional e seus desafios…


rolounarede

APAGANDO FOGO E ENXUGANDO GELO?

Esta semana, Renata trouxe à rede um desafio que viveu em seu trabalho como psicóloga num serviço de acolhimento: “Temos uma adolescente de 15 anos que desistiu de estudar, não quer participar de nenhuma atividade e só fica na frente da televisão, assistindo e comendo. Recentemente, quando a porta de entrada foi aberta, ela simplesmente saiu e disse que iria fugir, fez isso na minha frente. Quando eu percebi que ela estava falando sério comecei a segui-la e pedir para ela voltar. Ela se recusava e começava a andar mais rapidamente, teve uma hora em que eu a perdi de vista – ela viu a sua mãe, quem eu havia chamado para me ajudar. Sei que o desfecho dessa história acabou com muitas voltas de carro pela cidade, até encontrar a adolescente e retorná-la para a instituição. Esse caso de fuga não foi o primeiro caso, nem o último. Como psi me sinto responsável em fazer algo, mas não sei bem o que.  Às vezes sinto que minha prática ultrapassa os limites de uma psi, mas muitas vezes eu me vejo sem escolha.  Alguém pode me ajudar?”.   

Glauco foi o primeiro a se manifestar, dizendo que é muito importante que o serviço de acolhimento tenha uma figura de autoridade baseada no afeto, com a qual a adolescente possa estabelecer um vínculo que a faça respeitar limites e regras. Ele sugere que haja “um tempo/espaço para sua expressão, onde se sinta segura e possa manifestar sua história, sentimentos e perspectivas. Sem dúvida também será interessante entrevistar sua mãe e colher mais informações a respeito”.

Renato chama a atenção para a questão da fuga: “somente fugimos de um lugar quando esse não está suficientemente bom. Glauco tem razão: são os educadores que precisam promover o vínculo. Somente haverá trabalho com a garota se ela tiver os sentimentos de vínculo e proteção com relação aos educadores”. Renato comenta ainda que para estabelecer tal vínculo, não se faz necessário deixar a criança ou adolescente fazer o que ele bem entender: “Limites claros e acolhimento. Não é no nosso tempo, é no tempo dela. Vai dar certo. Você tem que acolhê-la. Ir atrás dizer e sentir que realmente se importa com ela!”.  

A partir deste apoio, Renata expõe mais um pouco sobre o seu trabalho no serviço de acolhimento: “muitas vezes o meu trabalho está se resumindo a “apagar fogo” das questões emergentes, isso toma todo o meu tempo. São tantas questões para resolver e às vezes parece que eu corro e não saio do lugar. Percebi no decorrer da minha atuação que preciso trabalhar os funcionários, as crianças, os pais e a comunidade. No entanto, tenho encontrado grandes barreiras… Isso me desanima tanto”.

Mas Patrícia logo demonstra que ela não está sozinha: “Não desanime! Trabalho há quase 25 anos como coordenadora pedagógica de uma entidade de acolhimento em Brasília. Quantas vezes me desanimei e achei que era hora de sair, e pensava: serei mais uma a abandonar estas crianças e adolescentes…”. Eles me ensinaram muito durante este tempo e ainda me ensinam e me desafiam a ser cada dia melhor como pessoa e como profissional. Busque apoio de outros profissionais de outras instituições que possam trocar experiências com você e não se sentirá tão sozinha nesta luta”.

citizenship-art531680_629380477088147_1991735735_nimages

Renato reforçou a importância do trabalho em equipe, dizendo que quando uns desanimam, outros têm que assumir a frente, para dar tempo ao primeiro de pensar e respirar enquanto o outro faz o que precisa ser feito. Além da equipe, ele diz que é preciso pensar numa rede de pessoas que realmente se importam, pra seguir enfrentando os desafios deste trabalho. “Acredito que cada acolhid@ deve vir com uma placa imaginária no peito, onde se lê: “Desculpe os transtornos, estou em construção”. É no tempo dela!”.

E a rede se fortalece ainda mais quando Sônia oferece apoio a partir da Vara de Infância e Juventude para estar junto com Renata nos desafios de se trabalhar com o acolhimento de crianças e adolescentes, oferecendo o contato com outros profissionais da área. “Sair atrás de uma adolescente pode ser sim uma atividade esperada por qualquer profissional que esteja no campo interdisciplinar. Como disse Renato, é mostrar para a adolescente que ela vale a pena, que a instituição não irá tratá-la do mesmo modo como sempre foi, transparente. Porém, como nós consideramos a palavra uma ferramenta importante para construção do humano, ela precisa estar presente após o ato, já que não foi possível antecedê-lo. Construir espaços coletivos e individuais de fala é muito importante, seja permeado por histórias, desenhos, construção de murais com revistas, filmes, fotografias… Precisamos desenvolver em nós a capacidade criativa, porque não há método que dê conta da diversidade humana! A cada episódio, novas reflexões e novos fazeres. Compreendo teu sentimento, parece que a descontinuidade que os adolescentes vivem, imprimem uma marca que contamina o nosso fazer. Como desenvolver um trabalho sistemático, contínuo, dentro de um espaço em que a descontinuidade, a instabilidade e a provisioridade é a marca? Nós precisamos nos fortalecer para poder trabalhar na perspectiva  do fortalecimento do sujeito”.

Por fim, Ana Elisa coloca que todos aqueles que trabalham ou trabalharam com acolhimento devem ter se identificado com essas passagens que a Renata trouxe:  “Sou psicóloga de uma instituição de acolhimento no interior de São Paulo e a problemática das “fugas” também faz parte de nossa realidade… É real também a nossa vontade de desistir, bem como é real da mesma forma a inquietação de sermos mais um a abandonar essas crianças e adolescentes, caso desistamos… Sim, Renato, concordo plenamente com você quando diz que precisamos ser mais teimosos, sempre e firmemente! Com insistência podemos ver e sentir as mudanças que plantamos e provocamos dentro de cada um deles e é certo que daí é que vem nossa força e vontade de nunca desistir!”.

Sugestões de leitura e filmes nesta conversa:

–       A Causa dos Adolescentes (livro de Françoise Dolto)

–       O Contador de Histórias (filme de Luis Villaça)

–       Um Sonho Possível (filme de John Lee Hancock)


E você, o que acha?

  1. Roberta disse:

    Renata, eu sou psicóloga em uma instituição de acolhimento de meninas de 06 a 17 anos. Também me sinto assim, as vezes, mas quando olho em volto e vejo pequenas mudanças em cada uma delas, a forma de falar, a melhora na educação, os momentos que começam a contar as suas angustias, isso me reanima. Te aconselho a trabalhar pequenas mudanças e pequenas soluções. O problema da fuga é recorrente em quase todas as instituições. Para essas crianças e adolescentes “a rua” é a solução dos problemas, não tem hora, não tem limite, não tem adulto chato ……. acho que a concorrencia conosco que temos afeto, atenção, conhecimento para oferecer é muita vezes desigual. Muito bom esse espaço para troca de experiencias.

  2. m disse:

    Sou apenas uma mãe adotiva, mas acho essa troca de experiências muito importante . se estamos sentindo segurança e amados é bem mais difícil querer fugir!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *