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#rolounarede: “nem para ir na padaria…”


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A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA

A última discussão que #rolounarede foi relativa à autonomia e independência dos adolescentes que estão acolhidos. Um dos membros da rede relata que na instituição na qual trabalha “os adolescentes não saem sozinhos, nem para ir na padaria. Muitos estão trazendo o desejo de retornar da escola sozinhos, dos cursos”. Melissa apoia e acha importante, mas teme que a presidente da instituição não concorde.

Alguns membros da rede apoiam Melissa encontrando artigos que esclarecem que a convivência comunitária, o livre trânsito e o acesso a recursos da comunidade devem ser mantidos no período de acolhimento. Um deles é o artigo 101 §1: “o acolhimento institucional ou familiar são medidas excepcionais e provisórias, utilizáveis como forma de transição para reintegração familiar ou, não sendo esta possível, para colocação em família substituta, não implicando privação de liberdade“.

Milena cita ainda o artigo 92-VII, que dispõe de entidades que desenvolvem programas de acolhimento devem ter como princípio a participação na vida da comunidade local, e o PNCFC (Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária). Finaliza dizendo que “é um processo que requer muita conversa com os adolescentes, muitos combinados, mas que dá muito certo!”.

Marcelo conta que no abrigo em que trabalha, tinham este problema. Eles começaram fazendo um vínculo com o judiciário e depois com os adolescentes: “se partir do princípio que o responsável do abrigo é seu tutor, entendemos que temos como criar estas regras como criamos em nossas casas”. Finaliza dizendo que “quanto mais prendemos, menos eles querem aceitar, portanto vá aos poucos dando esta ideia de liberdade”.

Claudia retoma a questão que Melissa colocou acerca das dificuldades com uma diretoria desatualizada, pensando que diretorias e conselhos também precisam se formar e se atualizar: “como podemos alcançar todas as mudanças que almejamos com os diretores, ou seja, os comandantes mais importantes das organizações, desconhecendo as mudanças do cenário do acolhimento?”. Ela questiona como avançar na governança do abrigo: “Respeitada a história de cada diretoria penso que para dirigir uma instituição que tem um abrigo, é preciso saber sobre acolhimento. Concordam?”.

Claudia traz o documento “Orientações Técnicas” (disponível aqui) que tambémapresenta mais alguns argumentos: “crianças e adolescentes devem circular pela comunidade de modo semelhante àqueles da mesma faixa etária – caminhando, usando transporte público ou bicicleta – …”. Completa supondo que essa circulaçãoo vai sendo conquistada por conquistada por todos: adolescentes, educadores, gestores e pela própria comunidade.

Melissa relembra: sua instituição tem 115 anos, e a presidente desta, 90. “Estamos num processo de quebrar paradigmas mesmo”.  A Sandra comenta que passou pelo mesmo na última entidade na qual trabalhou e que utilizou de argumentos simples: “aos 14 anos já podem trabalhar como aprendizes, logo, podem sair sozinhos, porque não serão levados por educadores ao trabalho e escola. Posteriormente, reduzi mais com a argumentação sobre o “fim da infância” aos 12 anos… também iam sem acompanhantes às atividades”. Sandra destaca que todo o processo foi permeado por Assembléias da Palavra com acolhidos(as), educadoras e equipe.

Marcelo trouxe a importância do abrigo ter um juiz e um promotor parceiros, pois pode procurar o auxílio do judiciário nas decisões. “Mas o segredo está na relação de confiança que estamos mantendo com nossos assistidos. Embora tenhamos uma visão de casa, deve ficar sempre claro que os deverem vêm antes dos direitos e assim consequentemente”.

Carina também compartilha sua experiência, lembrando que muitas vezes o que funciona em um caso pode não funcionar em outro: “Na instituição em que trabalhei, por exemplo, um marco para a coordenação foi quando, há anos atrás, um adolescente fez 18 anos e mal sabia atravessar a rua (segundo conta a história…) ou de um outro que só queria andar de motorista, se recusando a usar o transporte público. Isso fez a instituição pensar: como estamos educando?”.

Ela enfatiza que há inúmeras estratégias de convencimento, mas que a melhor pessoa para saber onde está a brecha é quem está inserida na instituição, pois é quem conhece a direção.

Marcelo relembra que “os assistidos não são nossas crianças e sim crianças de um mundo em movimento do qual eles devem ser protagonistas de sua própria história. Se não fizermos isso estaremos sendo da mesma linha dos nossos governantes, uma linha assistencialista onde o assistido se torna dependente e nunca consegue se desvincular das migalhas que lhes são oferecidas. Onde os programas sociais são na sua maioria uma maneira de deixar cada vez mais dependente esta população vulnerabilizada”.

Ana Paula também conta da experiência na instituição em que trabalha: os adolescentes transitam por conta própria, são responsáveis por seus objetos pessoais e também pelo espaço coletivo. Trabalham a autonomia aliada à relação de confiança. Ela levanta, ainda, a questão do desacolhimento: “Acho bastante proveitosa essa discussão nos abrigos para que repensem que esse adolescente vai pra uma república jovem onde serão autônomos, ou irão alugar um espaço para morarem”.

Mônica continua a discussão, dizendo que acompanha “algumas ações para a promoção da autonomia e independência nos jovens e cada vez mais tenho a certeza de que este é um processo que começa no berço, e que não pode ser pensado apenas quando os 18 anos se aproximam”.

Conforme disse Melissa: seguimos!! Cada vez mais autônomos,  desenvolvendo nossas potencialidades, construindo uma visão crítica, conquistando direitos e negociando com nossos “superiores”.
Assim como as crianças e adolescentes!


E você, o que acha?

  1. danila disse:

    realmente se trata de uma situaçao delicada, mas que de fato tem que ser encarada, a autonomia é um fator fundamental para o sucesso do desabrigamento. o adolescente tem que se sentir seguro e confiante, rautor de suas proprias escolhas para isso se faz necessario o direito de ir e vir, claro que com combinados, regras e limites.

  2. Acredito que o adolescente está na fase do desmame, onde ele deve começar a andar com sua próprias pernas , precisa ter autonomia , se sentir seguro para encarar o mundo de frente , com atitude e principalmente consciente de cada passo dado.

  3. DIRCE FRANÇA disse:

    Bárbara, essa discussão! Tudo tão simples e no entanto quanta mudança de “pensares” exige por parte de quem está na função legal de gardião! Vários aspectos importante foram levantados, e eu gostaria apenas de chamar atenção para um outro. Talvez, umas das dificuldades para essa mudança de mentalidade resida mesmo no medo que o guardião tem quanto á possibilidade de vir a responder legalmente por qualquer coisa que possa acontecer ao adolescente quando está exercendo seu direito de ir e vir. Se algo acontece com um de nossos filhos nos espaços públicos, respondemos apenas a nós mesmos a à nossa consciência. Mas se algo ocorre a um adolescente sob medida protetiva, as consequências legais para o guardião são de outra ordem. Não sei, acho que esse elemento deve ser levado em conta quando dialogamos com a direção e procuramos mostar a necessidade de o adolescente poder experimentar uma vida mais livre e sem a qual impossível a autonomia.
    Abraços em todos dessa rede fantástica!
    Dirce França
    Instituto Berço da Cidadania
    Brasilia/DF

  4. Renato Fonseca disse:

    Acredito que somente a autonomia pode tornar o adoelscente sujeito de sua propria história. O acolhimento Institucional tem prazo de validade e quanto menos responsabilizamos estes sujeitos sobre suas escolhas, menos eles vão conquistar e o pior é que depois dos 18 não tem com quem contar. Ser sujeito da propria história é criar segurança de estar no mundo. Hoje temos muitos desafios, argumentar com Conselhos, Rede de assistencia que prender o acolhido ou acolhida na instituição não só o priva da socialização quanto o impede de ser capaz. Livra-los do mundo é coloca-los mais a margem do que estão e isso precisa ser mudado.
    Um exemplo pequeno que quero ressaltar é sobre um adolescente na instituição que trabalho que apesar dos esforços no processo de autonomia, foco nas potencialidades e independencia, por um importante momomento funmcionários cuidadores não cobravam dele uma certa organização de suas coisas e por varias vezes suas ropupas eram recolhidas do varal por que a cuidadora tinha pena do garoto. Bom! O fato é que hoje o quase jovem que esta residindo em um pensão esta tendo problema com a organização e conflitos, ou seja, por mais que nos atentemos é necessário cuidar mais e de maneira diferente, pois existem formas de cuidados que só acomentem o sujeito em suas potencialidades. Enfim trabalhar autonomia é a todo tempo é como diria Dom Bosco padre da igreja cotólica é estar assistindo presentemente, mas não fazer por ele.

    Renato Fonseca

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