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É preciso que quem cuida seja, também, cuidado! por Dirce França


DIRCE BARROSO FRANÇA

CUIDANDO DE QUEM CUIDA: REFLEXÕES SOBRE UMA EXPERIÊNCIA DE CAPACITAÇÃO DE CUIDADORAS RESIDENTES

Olá, a todos e todas que compartilham esse blog!

Sou Dirce França, psicóloga, psicanalista e presidente do Instituto Berço da Cidadania, uma instituição qualificada como OSCIP com sede em Brasília e representante do Distrito Federal no GT Nacional Pró-convivência Familiar e Comunitária. Dada a minha formação profissional, minha atenção sempre esteve voltada à dimensão da subjetividade e tenho sempre procurado trazer ao debate a preocupação quanto à construção do espaço institucional como espaço de proteção e tenho defendido em todos os momentos que a proteção preconizada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente para ser efetiva, apóia-se na qualidade do vínculo estabelecido entre profissional e criança [1].

Uma das tarefas fundamentais no âmbito da entidade de acolhimento, senão a mais fundamental delas, é a de possibilitar o estabelecimento desse vínculo que permitirá à criança aumentar a sua resiliência e, consequentemente, transformar seu destino[2].Essa dimensão, a da qualidade do vínculo, em minha avaliação, continua sendo negligenciada, mesmo após um amplo movimento nacional que clama pelo reordenamento dos serviços, para o qual as Orientações Técnicas têm sido o principal guia.  A atenção dos responsáveis pelo controle e fiscalização dos serviços atém-se aos aspectos físicos e quantitativos (abrigo institucional? Casa-lar?, etc). Entendo que ao se limitar, por exemplo, o número máximo de crianças acolhidas estava se dando um passo importante para a garantia do atendimento com atenção à singularidade, mas se não cuidarmos dos profissionais que atendem diretamente a criança, o esforço de se fazer da instituição um verdadeiro espaço de acolhimento e proteção estará condenado ao fracasso. É preciso, portanto, que quem cuida seja, também, cuidado!

Com o propósito de cuidar de quem cuida, o Instituto Berço da Cidadania tem promovido capacitações para os cuidadores ou educadores sociais das entidades de acolhimento. Recentemente concluímos uma dessas capacitações (Projeto Cuidando de Quem Cuida, com apoio da Secretaria de Direitos Humanos/PR) na qual trabalhamos em 6 entidades em reuniões quinzenais com as equipes de cuidadoras/educadoras ao longo de março a dezembro de 2011.

Procurando aliar a aquisição de conhecimentos básicos essenciais à função (tais como noções sobre desenvolvimento infantil e da adolescência e dos princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente) com a atenção aos aspectos emocionais e à história de vida das cuidadoras, foram trabalhados temas tais como: representação do papel de cuidadora;  importância dos cuidados singularizados; momentos especiais (chegada e  saída da instituição); especificidade do vínculo da cuidadora: similaridades e diferenças em relação ao vínculo com a mãe; histórias de vida: o passado da cuidadora e sua influência atual no vínculo com a criança; relacionamento com a família de origem: desconstrução de preconceitos, dentre outros[3]. Uma síntese do trabalho pode ser acessado no link: www.cuidandodequemcuida.org.br.

É importante ressaltar que o trabalho, embora conduzido com atenção à dimensão emocional das cuidadoras, não se configura como um grupo terapêutico estrito senso, embora, evidentemente, pudesse ter, em muitos momentos, efeitos terapêuticos. O propósito das reuniões deve estar bastante claro tanto para os facilitadores quanto para as cuidadoras: a finalidade última do trabalho é que se possa aumentar a disponibilidade psíquica da cuidadora à criança da qual ela se ocupa.

Uma pré-condição ao desenvolvimento do trabalho é a criação de um espaço de confiança pautado na escuta sensível e sem censura, espaço no qual a cuidadora possa sentir que ela está sendo, de fato, valorizada. Um ponto sempre delicado do trabalho consiste em equilibrar as demandas opostas que são feitas aos facilitadoras do processo, ora pela direção da entidade, ora pelas cuidadoras. Quando conquistamos a confiança das cuidadoras, muito rapidamente elas passam a nos ver como “porta-vozes” junto à direção e, se o facilitador não é hábil, as reuniões transformam-se em “espaço de lamentação”, com as cuidadoras apenas queixando-se das condições de trabalho, da falta de valorização de sua função, dos baixos salários, etc. Saber transformar esse discurso de queixa em auto-questionamento, sem desqualificá-lo, é fundamental ao processo.

Aqui há um risco considerável de o facilitador se “identificar” às cuidadoras e, sem o distanciamento necessário, irá se sentir tão vítima e tão impotente quanto elas próprias, perdendo assim sua função de provocador da reflexão. Chamo a atenção para esse risco, pois dependerá do seu adequado manejo o êxito do trabalho. Essa é uma encruzilhada: o facilitador deverá saber qual a sua posição. Ele não é um “igual”, mas essa alteridade deverá ser sustentada no respeito e na qualificação. Se se identifica, o que poderá em um momento inicial ser bastante apreciado pelas cuidadoras que vêem, momentaneamente, o facilitador como um aliado, rapidamente evidencia-se a armadilha: se o facilitador é igual, então é tão impotente quanto a cuidadora! E, passo seguinte, o grupo perde a confiança no facilitador e perde-se o sentido das reuniões, que passam a ser vistas como inócuas ou, na melhor das hipóteses, apenas uma breve pausa de descanso e relaxamento.

Por outro lado, há também o grande risco de que a direção da entidade passe a considerar os facilitadores do grupo como “agitadores”, pois inevitavelmente à medida que as reuniões prosseguem, as cuidadoras assumem uma posição menos submissa e mais questionadora. E essa posição mais “empoderada” com certeza irá representar, para uma direção pouco sensível, apenas uma fonte de problemas e não uma possibilidade de aprimorar os serviços.

Considero que alguns procedimentos são essenciais para se proteger o facilitador dessas armadilhas. Em primeiro lugar, é fundamental que seja acordado com a diretoria ou coordenação da entidade a realização periódica de reuniões com os facilitadores dos grupos. Esse será o espaço no qual se buscará sensibilizar a direção sobre a estreita relação entre os cuidados dispensados à cuidadora e a qualidade da relação que esta estabelece com a criança. Assim como é necessário criar um espaço de confiança junto às cuidadoras, essa confiança deverá ser também criada junto à direção. Confiança que deverá possibilitar, inclusive, a manifestação clara, ainda que sempre pautada no respeito, das discordâncias dos facilitadores quanto aos posicionamentos da direção. 

Em minha experiência o diálogo com a direção tem sido o ponto mais delicado e difícil, pois nossa cultura ainda está fortemente marcada por matizes escravocratas na qual parece haver o pressuposto de que essas profissionais, em geral pessoas com pouca instrução formal, oriundas dos extratos sociais mais desfavorecidos, “devem agradecer por terem casa e comida no trabalho” e, portanto, “devem não apenas suportar as exigências do trabalho, como serem gratas pela oportunidade”. Contudo, não se pode perder de vista que o processo de mudança é sempre muito lento: opera-se por pequenos passos à frente e outros tantos em recuo! Ainda que lento em seu avanço, o trabalho justifica-se pela possibilidade de transformar uma cultura que ainda opera na contramão da cidadania. Sei que esse desafio não é fácil, mas estou segura de que podemos ter êxito! Então, lancem-mo-nos ao desafio de operar a essa transformação, qualificando a relação cuidadora/criança!

Por fim, gostaria de concluir enfatizando o que esse trabalho NÃO É!

O que esse trabalho não é

> não é um grupo terapêutico, embora tenha efeitos terapêuticos;

não é mero espaço de relaxamento e descanso, embora promova um momento de pausa das demandas do trabalho e, precisamente, por isso possibilite refletir sobre o trabalho;

> não pode ser transformado em simples “espaço de lamentação”, embora se deva ter escuta sensível às queixas e sofrimentos das cuidadoras, mas  valendo-se dos relatos para provocar reflexão, auto-questionamento e sensibilização da cuidadora para o sofrimento da criança e para as  necessidades destas.

SOBRE A AUTORA:

Psicóloga, psicanalista, mestre em psicologia clínica pela Universidade de Brasília (UnB, 1997)- Especialização em cuidados institucionais no Instituto Lóczy- Budapeste (2005)- Especialização em intervenções precoces pela ABENEPI-RJ-(2004)- Membro da ABEBÊ- Membro fundador do Instituto Berço da Cidadania- Representante do DF no GT Nacional de Convivência Familiar e Comunitária- Membro da Comissão Intersetorial do DF para monitoramento e implantação do Plano Distrital Pro Convivência Familiar; Representante do Instituto Berço da Cidadania na Rede Nacional Primeira Infância. Tem apresentado palestras e feito capacitações em diversas cidades objetivando a melhoria do atendimento nas entidades de acolhimento. Mais especificamente, em relação à Primeira Infância, tem trabalhado para promover mudanças nos cuidados institucionais de modo a reduzir os efeitos traumáticos da separação da mãe nessa fase tão precoce da vida.

SOBRE A INSTITUIÇÃO QUE REPRESENTA: INSTITUTO BERÇO DA CIDADANIA

O Instituto Berço da Cidadania foi fundado em 2007, tem como missão a promoção do direito de crianças e adolescente à convivência familiar e comunitária. No Brasil, cerca de 80 mil crianças foram afastadas de suas famílias por determinação judicial e vivem em entidades de acolhimento. Em muitos casos, intervenções preventivas no âmbito familiar poderiam ter evitado esse afastamento. Berço da Cidadania, em sua atuação articulada com a rede de proteção social e de garantia de direitos, tem contribuído para modificar essa dramática realidade em duas frentes principais: na prevenção do abrigamento e na melhoria dos cuidados de atendimento nos abrigos. Nesse sentido, a instituição é representante do Distrito Federal no principal fórum de discussão nacional sobre o tema, o GRUPO DE TRABALHO NACIONAL PRO-CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA, no âmbito do qual tem proferido palestras e capacitações em diversas cidades do Brasil, sempre procurando demonstrar que os cuidados nos abrigos devem ser reparadores da violência sofrida pela criança e, não, uma repetição desta. No campo especifico da primeira infância, integra a Rede Nacional Primeira Infância, tendo elaborado o capítulo referente aos cuidados especiais nos abrigos para o Plano Nacional da Primeira Infância.

[1] Devo ao Institituto Lóczy e à significativa experiência que ali tive em 2005 a convicção de que é possível, mesmo no contexto coletivo, assegurar cuidados reparadores à criança. Para um exemplo da qualidade dos cuidados em Lóczy, ver os vídeos: O Olhar e a VozConversa Prévia ao Banho e A Luva.

[3] Textos de apoio a esses temas podem ser encontrados no site do projeto Reconstruindo Vínculos.


E você, o que acha?

  1. Flavia disse:

    Ola Dirce,
    Que trabalho maravilhoso!!!
    Sou estudante de psicologia, estou no quinto ano e meu trabalho de TCC e sobre o cuidado com os cuidadores, gostaria de saber se vc pode me indicar algum artigo ou livro(bibliografia) que fala sobre o assunto para eu poder me aprofundar melhor.
    Muito obrigada,
    Flavia

  2. Mari disse:

    Olá Dirce! Que bom conhecer seu trabalho. Estou iniciando um projeto de doutorado que visa estudar se as histórias de vida dos educadores levam a identificações: sejam as com a criança, que ajuda a garantir suas necessidades das mais variadas ordens; sejam com os pais ou familiares, causando dificuldade de potencializar o vínculo e cuidados com investimento, ficando numa impotência e culpabilizações diversas. Vou olhar a sistematização que vcs têm sobre os encontros que fizeram, mas se puder comentar meu projeto, seria bem legal! Será um projeto muito pouco original? A ideia é comparar também estas identificações com dois grupos de crianças, bebês e crianças de 5 e 6 anos. De qualquer forma, tenho acompanhado diferentes perfis de educadores/cuidadores e muitas vezes acho que há um longo caminho para entender com eles como chegaram a ocupar este cargo. Não acho que este é um trabalho para quem precisa de emprego. É um trabalho para quem ama – num sentido ético do amor pelo coletivo. Muito obrigada pela sua contribuição para novas conquistas!!! Um abraço, Mariana.

  3. Olá, Dirce!

    É sempre muito bom ler os seus artigos… Eles nos levam a refletir a partir das suas vivências, que também são as nossas.

    Continue escrevendo!

    Beijão!

  4. Claudia Vidigal disse:

    Adorei os textos que, finalmente, pude ler!
    Obrigada queridas!

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