Compartilhando práticas


“Cuidar com amor e dedicação, mesmo que seja passageiro”


A partir do vídeo que foi compartilhado no AcolhimentoemRede e postado aqui, Tamiris Corrêa quis compartilhar a sua história e seu percurso no acolhimento de crianças e adolescentes.

Mãe postiça, por Tamiris Corrêa – Psicóloga 

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A maioria das pessoas quando escuta ou descobre o que eu faço, me olham com um ar de admiração, sendo raro uma pessoa jovem como eu se interessar por trabalho social e querer ajudar, se dedicando tanto. Todavia, o que não sabem é esta minha dedicação e o amor que tenho por essa causa, por essas crianças – que tomei para mim como uma missão – têm maior importância para mim do que para as crianças. Desde outubro de 2008, iniciei o meu trabalho voluntário em uma instituição de acolhimento para crianças de 0 a 11 anos, referida como Casa de Passagem. Bem, vou explicar melhor como tudo aconteceu. Eu estava cursando psicologia, no segundo período, pensando em parar com o curso e em um momento em que eu sentia que a minha vida não fazia sentido. Foi quando minha mãe, diante de sua angústia, conversou com uma conhecida dela que estava assumindo uma instituição de acolhimento e que poderia me colocar como estagiária de psicologia voluntária; então fui à inauguração deste local, hoje mais conhecido como a minha segunda casa.

A primeira visita à casa foi em um dia de semana à noite em que houve um lanche para as crianças e oração; eram 18 crianças. A minha segunda visita foi com o propósito de conhecer a psicóloga, Luciana, e conversar. Era uma tarde, me arrumei toda, passei maquiagem e fui toda formal. Quando cheguei ao local, ela estava ocupada e disse para ficar com as crianças, observando e interagindo. Bom, eu não sabia lidar com crianças, tinha medo de pegar bebês de 01 ano no meu colo e literalmente fiquei totalmente perdida. Não consegui conversar com a Luciana, cheguei em casa três horas depois – suja, com a maquiagem borrada, toda despenteada e pensando que nunca conseguiria gravar o nome de todas elas; porém com boas expectativas. A partir disso a minha vida mudou.

Enfim, consegui conversar com a psicóloga, ela me explicou o estágio e comecei duas vezes por semana a frequentar e acompanhar a Luciana e suas orientações. No começo estava muito perdida com tudo e sem iniciativa, depois fui me sentindo à vontade. Passei por muitas coisas e este lugar se tornou meu refúgio, cuidar dessas crianças se tornou o meu maior prazer e inspiração. Após um tempo, passei a ser apenas voluntária, depois, voltei a ser estagiária e remunerada, mas atualmente sou voluntária novamente e sou muito feliz com o que eu faço. Com as minhas crianças aprendi tanta coisa, entre elas: trocar fraldas, dar banho do bebê pequeno à criança grande, ter autoridade, educar, dar mamadeira e comida para bebê, sobre a saúde da criança, sobre o vírus HIV, a ensinar, a realizar atividades para desenvolvimento psicológico, sobre o desenvolvimento, a escutar; em outras palavras, aprendi um pouco de como ser psicóloga e um pouco de ser mãe.

Realizei também toda forma de atividades que possa existir, já cortei batata, lavei louça, arrumei criança para sair, dei banho, troquei fralda, brinquei, fiz atividade em grupo, assisti televisão com elas, dei mamadeira, orei com elas, organizei a refeição para os maiores, alimentei os bebês, estimulei a o desenvolvimento motor dos bebês, levei em P.A., hospital, médico, atividades físicas (balé e judô), passei noites e dias em hospital, fiz listas de aniversário, recebi visitantes para conhecer a casa, recebi a criança recém chegada, acompanhei as visitas familiares, visitei os parentes para avaliação, fiz relatório junto com a psicóloga, consegui recursos externos de atividades para as crianças, fiz passeios e acima de tudo, tentei dar o suporte emocional que elas tanto necessitam.

Muitas pessoas não entendem quando digo que são meus filhos e me respondem que quando eu tiver um filho da minha barriga vou entender – pensem o que quiserem – mas acho que diante de tudo isso, da grande preocupação que tenho, me sinto uma mãe postiça, no sentido de que faço de tudo que posso para estar presente e garantir o bem estar deles enquanto estão comigo, até que ganhem uma família nova ou voltem para a família de origem. Enquanto elas estiverem nesta instituição, estarei com elas, faço o meu melhor e me preocupo com elas, para que elas consigam famílias e sejam felizes. Eu entendo que estão temporariamente, mas que sejam felizes então neste momento. Eu digo que hoje tenho 18 filhos, mas já tive 32, 25, 15 e está sempre variando. Ainda mantenho contato com algumas famílias, e digo que prefiro morrer de saudades e que estejam bem longe de mim, do que estarem ali.

No final das contas, só posso dizer que é um privilégio poder estar com elas. Esta causa se tornou a missão da minha vida e o meu projeto de conclusão de curso foi exatamente voltado a esse tema e gostaria de pontuar a necessidade desta discussão, pois as crianças e adolescente em situação de acolhimento institucional ainda sofrem muito com a falta de organização desses locais. Gostaria de acrescentar que existem pessoas como eu (voluntários e funcionários), apaixonadas e que realmente se importam com as crianças e isso é muito importante.

Bem, esse é o meu lado da história, como disse o vídeo, as histórias precisam ser contadas…

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