Compartilhando práticas


O oferecimento de oportunidades não garante a aquisição de autonomia, por quatro colaboradores


Equipe do Grupo nÓs (Mahyra Costivelli, Manuela Fagundes, Renata Gentile e Claudia Vidigal)

Grupo nÓs!

Desde outubro de 2011, o Instituto Fazendo História vem desenvolvendo o Grupo nÓs junto a 14 adolescentes próximos de atingir a maioridade, que por isso estão em processo de desabrigamento. Temos como objetivo assegurar que este grupo tenha apoio emocional, material e profissional para enfrentar os desafios que experimentarão nesse processo. Como estratégias, oferecemos as seguintes ações: encontros individuais com os adolescentes, encontros com o grupo, saídas coletivas a espaços culturais da cidade e reuniões com equipes dos abrigos e repúblicas.

Partimos do entendimento de que um bom processo é aquele que se sustenta no longo prazo, que de fato caminhe no sentido do jovem construir um posicionamento frente àquilo que deseja e assim ter mais possibilidades de realização.  Para isso é fundamental que cada jovem percorra seu caminho ativamente, com autonomia. Entendemos autonomia como a capacidade de se colocar enquanto sujeito, de fazer escolhas e se responsabilizar por elas. Dessa forma, acreditamos que é fundamental o desenvolvimento de um trabalho no sentido de possibilitar a esses adolescentes um encontro com seus desejos e potencialidades, para assim construírem, de forma autônoma, seus projetos de vida.

Consideramos que na história de institucionalização de cada um dos jovens, o lugar de beneficiário se sobrepôs ao lugar de protagonista. Portanto, por mais que indiquemos alguns caminhos, a escolha individual deve ser respeitada. Isso que parece óbvio, na realidade tem sido um enorme desafio, porque nos pegamos muitas vezes traçando metas para os adolescentes, e muito frustradas com a não adesão deles naquilo que nos parece a melhor escolha. Nesse curto tempo da iniciativa pelo menos um aprendizado muito relevante temos adquirido:  o oferecimento de oportunidades, por si só, não garante a aquisição de autonomia. Essa questão tem a ver com aquilo que ouvimos com freqüência dos técnicos dos abrigos: a dificuldade dos adolescentes se implicarem com até mesmo aquilo que desejam ou dizem desejar.  Como ajudá-los a se sentirem mais responsáveis por si mesmos e pelo seu destino é o que temos nos perguntado.

O paternalismo de algumas instituições de acolhimento explica, em parte, este traço de passividade. Crianças que cresceram sendo beneficiárias de ações de caridade, com pouco espaço de expressão e decisão, sendo quase nunca convocadas a um lugar de proponentes e protagonistas, além da pouca convivência comunitária e acesso à cultura.  Sem dúvida, temos que considerar os efeitos da institucionalização prolongada ou até mesmo a história de violência – submissão a um adulto – que muitas vezes foi o motivo da medida de proteção.

Há também de se considerar que o tempo do adolescente é do “agora”, do imediato e nosso convite de pensar em um futuro é, além de doloroso – sair do abrigo pode ser significado como novamente um afastamento das referências afetivas – também um “despropósito”.

Neste momento em que todos têm sido convocados a pensar e realizar projetos de vida, percebemos o quanto é difícil para cada um saber de onde partir. Quem sou eu? Qual minha história? Do que eu gosto? Quem me deseja? O que eu desejo? Questões que permeiam o modo como a adolescência aparece em nosso contexto sócio-cultural, mas que, para estes meninos, acabam muitas vezes sendo endereçadas ao vazio.

Temos no grupo a possibilidade de que tal endereçamento encontre um remetente. Apostamos no grupo, na medida em que dentro do mesmo laços importantes vêm sendo construídos, como uma possibilidade de fazer circular todas essas inquietações motores da construção de um projeto de vida.

Se queremos trabalhar com vistas à autonomia, buscamos entender esta iniciativa mais como a mobilização de um grupo do que como o desenvolvimento de um projeto. Sabemos da potência do grupo, apostamos na “função fraterna”, conhecemos a necessidade de pertencimento do adolescente em grupo de pares. Quando desenvolvemos um projeto temos resultados muito claros e definidos a atingir; no entanto, trabalhando na perspectiva da mobilização de um grupo de sujeitos, não sabemos qual vai ser a direção de cada destino e com isso o resultado esperado passa a ser “um grupo de jovens que caminha na direção de fazer escolhas”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *