Formação Profissional


O cuidar envolve as pessoas de maneira inteira, por Mariana Stucchi


MARIANA PERES STUCCHI

O CUIDAR E AS HISTÓRIAS DE VIDA – EDUCADORES E SUAS PRÁTICAS EM INSTITUIÇÕES DE ACOLHIMENTO

Sou psicóloga, trabalhei em projetos sociais e na área de saúde mental de uma prefeitura, e meu mestrado foi sobre os modos de vida de mulheres, mães, pobres. Sempre me chamou a atenção à necessidade de cuidado, segurança, apoio, que as pessoas têm. Umas mais, outras menos, mas todos queremos um porto seguro para descansar e compartilhar. Ou não? Gostaria, então de compartilhar aqui algumas inquietações e questões que tenho tido atualmente, e que espero reverberar algumas outras em vocês, para pensarmos sobre este desafio gigante que é o acolhimento.

Em janeiro do ano passado, 2011, conheci o Instituto Fazendo História. Eu já tinha o plano de me mudar para João Pessoa, mas mesmo assim participei das formações e atuei como colaboradora do programa Palavra de Bebê. Consegui me aproximar desta instituição que tem propostas com foco neste cuidado com o outro em desenvolvimento e com sua rede de convivência. Encaixou bem com o que vinha fazendo e pensando.

Em agosto comecei a atuar junto ao programa Fazendo Minha História [1] na Paraíba. Conheci as casas, comecei a fazer divulgação, a organizar o I Seminário. E o segundo semestre foi de bastante trabalho! Os desafios que o projeto traz são grandes! Sinto que aumentam um pouco por eu estar em uma nova cidade. Caminhamos! As equipes, especialmente o corpo técnico, é apaixonado pelo Fazendo Minha História. Se encantam e querem colocá-lo em prática. Mas também há desafios para eles. E acredito que seja no Brasil todo!

Um dos problemas grandes por aqui é a falta de colaboradores voluntários. Será uma questão da Paraíba? Por conta disso, comecei a fazer mediação de leitura em grupo em algumas casas. Junto com os relatos das equipes, dos colaboradores e minhas observações, foi me chamando atenção o quanto alguns educadores ficavam distantes. Os que se envolvem permitem outra dinâmica para as mediações, para a arrumação da sala de leitura, para a organização dos livros, para o interesse dos meninos, etc.

Qual a relação que eles têm com a leitura? E com o projeto? Será que eles se sentem convidados a participar? Se identificam com a proposta do projeto? Em que medida eles se sentem capazes de participar? Como entendem sua função? Como se sentem à medida que se envolvem com os meninos? Foram algumas das questões que começaram a me surgir. E lendo um pouco do livro do programa Perspectivas, achei uma observação que me chamou atenção: que as histórias dos educadores seriam bastante parecidas com as das crianças, algo que poderia dificultar o contato com estas – “É muito importante que os educadores estejam atentos para perceber o tipo de sentimento que as crianças e famílias lhes mobilizam. Por exemplo: se os educadores se identificam demais com o sofrimento da criança, podem atuar de maneira involuntária, criando situações nas quais afastam a família da criança (…)”. Será uma observação freqüente? Alguém teria informações sobre esta possibilidade de histórias semelhantes? Se atentos a estes sentimentos será que a identificação grande não os aproximaria e facilitaria o cuidado diário?

Este ponto em especial me fez observar alguns movimentos: um educador muito interessado no projeto, logo quis me contar toda sua história; outros nem chegam perto dos livros e mal falam comigo ou com os colaboradores; um outro se achega apenas para ouvir a história de como os bebês são feitos, e logo sai quando acabo a leitura.

Desde que iniciei este trabalho em João Pessoa comecei a pensar o quanto este projeto exige dos colaboradores. Pessoas que se dispõem a ser voluntários, que devem compreender a importância de um vínculo, que deve ser afetivo, mas pode durar apenas um ano, que deve ter horário fixo, que deve ser pensado em suas manifestações emocionais, etc. É um envolvimento bastante intenso e de um compromisso muito sério. Alguém já traçou um perfil dos colaboradores?

A partir daí, comecei a pensar o quanto os educadores são também objetivo do Fazendo História. Até porque, em João Pessoa estamos lidando com uma realidade de poucos colaboradores – há muitos que se encantam com o projeto, mas não conseguem tempo para se comprometerem com ele. Então, temos refletido que a sensibilização destes profissionais para a função tão importante que desempenham e que se feita com investimento, envolvimento, compromisso, seriedade, não demandaria colaboradores para o trabalho com as histórias. Mas investimento, envolvimento, compromisso, seriedade, além de mais pontos que podemos acrescentar, é uma exigência bastante grande! E qual o processo de contratação? E quais os suportes dados a estes profissionais para desenvolverem uma função tão fundamental para o desenvolvimento destas crianças, destes cidadãos?

Ainda mais se suas histórias podem ser semelhantes às das crianças, especialmente em seus pontos mais doloridos, será que se imagina ser natural o ato de cuidar? Assim como acham, muitas vezes, natural o instinto maternal?

O cuidar envolve as pessoas de maneira inteira. Pensando numa vertente psicanalítica, estou falando do quanto pontos inconscientes estão sendo mobilizados e se manifestam neste dia-a-dia de cuidar do outro e de ser cuidado. Pensar que os educadores podem executar sua função de forma distanciada, apenas cuidando dos horários das crianças, por exemplo, é não pensar na necessidade que as crianças têm de adultos que sejam referência, que passem segurança, que se interessem por elas, se preocupem com o que se passa com elas.

Anton Makarenko (2005) conta sua experiência em instituição de acolhimento lá dos anos 1920/1930, no seu Poema Pedagógico. Makarenko, estudioso de pedagogia e de história diferente da dos seus acolhidos mostra em muitos momentos o seu desespero: “Deprimia-me um pensamento: será que não vou mesmo descobrir em que consiste o segredo? Pois parecia que eu já tinha tudo nas mãos, só faltava agarrar. Já havia um brilho novo nos olhos de muitos colonistas… e de repente tudo se rompeu tão miseravelmente. Será que eu teria de começar tudo de novo?” Se ele descobriu o segredo, ainda não sei, pois não cheguei ao fim das 653 páginas, mas é uma leitura bastante interessante! O convívio cotidiano mobiliza, especialmente os que se interessam pelo que fazem!

Para seguir pensando e estudando o tema pretendo desenvolver uma pesquisa de doutorado, que com certeza conta com a rica contribuição do acolhimentoemrede! Pensei no trabalho de Luís Claudio Figueiredo (2009) sobre o cuidado, como referência para a análise das entrevistas que pretendo fazer com os educadores. Entrevistas que visam permitir a eles narrar suas histórias de vida, contando de suas relações, de suas brincadeiras, de quem era mais próximo, como viam os adultos, que caminhos foram seguindo e como chegaram a este trabalho.

Vocês, assim como eu, acreditam que a sensibilização dos educadores para sua função nas casas de acolhimento favorece sua conexão e orientação frente ao desafio apontado acima? Poderemos, também, entender possíveis dificuldades ou facilidades no cuidar decorrentes das identificações das histórias e pensar em critérios de contratação ou de capacitação destes profissionais. Buscando melhorar a efetividade do Estatuto da Criança e do Adolescente, acompanhando a nova Lei da Adoção, percebendo que há muito a ser cuidado para isso. Não apenas as crianças e os adolescentes. O que acham? Será uma questão apenas na Paraíba ou sentida em outros lugares? Conhecem trabalhos sobre este tema?

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[1]  O Fazendo Minha História é um dos programas do Instituto Fazendo História e propicia meios de expressão para que cada criança ou adolescente em situação de acolhimento possa se apropriar e elaborar sua história de vida. A literatura infanto-juvenil e a construção de álbuns individuais são os principais instrumentos utilizados para alcançar este objetivo.


E você, o que acha?

  1. Lígia Pimenta disse:

    TEXTO CORRIGIDO E COMPLEMENTADO. FAVOR DESCONSIDERAR O ANTERIOR E ERRATAS:

    Professor ou qualquer uma outra categoria profissional é antes de tudo uma pessoa, nem santo, nem sacerdote, nem missionário, embora possa, como qualquer uma outra categoria profissional, eventualmente ou permanentemente se confundir com as categorias citadas, dado algumas características que possa a vir a ter em comum. Entendo que o que se constitui como base para a prática das relações dessas categorias, se pensadas em suas manifestações mais autênticas e/ou genuínas, ou ao menos mais valorizadas ou esperadas por todos, é a liberdade com responsabilidade que possa assumir em seu encontro com o outro (o outro aqui se entenda todos aqueles que não venham a ser ele mesmo, em outro dizer, que não seja o seu próprio umbigo).
    Equivocadamente a sociedade clama ao professor o assumir o papel de santo, de mãe, até mesmo de benévolo, deixando para um plano bem irrelevante as suas próprias necessidades.
    Por outro lado, aluno É também um outro ser humano, é também uma pessoa, capaz dos gestos nobilíssimos quando desejosos. Penso que o que faz o diferencial entre as pessoas são os valores que formam a base do seu pensamento e nesse caso, pelo que entendo, depende muito mais de caráter, de decisões assumidas e de uma dose enorme de auto-avaliação. Aí reside o impasse: auto-avaliação! Então dezenas de questões me ocorrem. Onde está o papel da auto-avaliação nas matrizes curriculares? Afinal, auto-avaliação é assunto de quem? Eu arriscaria em dizer que auto-avaliação é papel da EDUCAÇÃO COM QUALIDADE e que ela é responsabilidade de todos, das famílias, das escolas, das universidades, dos compadres, dos vizinhos, das igrejas, do passado, do presente e do futuro.
    Todos querem ser amados, mas a confusão se instaura quando se traz à discussão o significado para SER ÉTICO. Quem sabe essa seria realmente uma boa iniciativa, a de promover discussões sobre o que significa afinal esse tal de SER ÉTICO. Já vi muita gente se gabar em SER ATEU, mas em NÃO SER ÉTICO isso ainda me falta ver, mas daí ao discernir sobre o seu conteúdo, aí vai uma longa distância. Não vou ser ingênua para não acreditar que não haja aqueles que desconhece ainda a própria palavra ÉTICA, que dirá o seu significado. E aqueles que nunca ouviram falar em DISCERNIMENTO?! Confesso, um tanto quanto contrariada, ter uma pequena vantagem sobre estes, porque fui ter com a bendita palavra aos meus 33 anos, e é que de investimento em educação lá se haviam consumidos 26 anos e um mestrado, pasmem! Isso funcionou em mim como um soco no estômago, porque auto-imagem questionada é algo que causa grande má impressão. Aprendi que discernimento, é palavra que, via de regra, faz parte do jargão da igreja. Nesse caso, bem aventurados os que foram educados sob essa medida. Mas não se pode denominar a categoria, pois assim como professor, santo, sacerdote, aquele que educou sob a base da importância do discernimento, esse sim merece toda menção e gratidão social, pois são esses, acredito, que formam a base de uma sociedade humana e justa. Ainda acrescento discernimento e ética me parece uma excelente receita.
    Via de regra, na hora que o sapato aperta, é um “deus nos acuda”. Imagina-se lá os conselhos que são dados para resolver problemas; basta olhar para o perfil de sociedade que nós construímos, é visível que lá se foi a responsabilidade de todos. Culturalmente somos oprimidos por concepções equivocadas do tipo “não se meta com o que não te diz respeito” ou o tradicional “não é de sua conta”, mas me pergunto, o que é que não nos diz respeito, em se tratando de vida em sociedade? E nem posso discutir a felicidade dos meus próprios familiares, nem os meus próprios infortúnios. Seguimos todos como se não fizéssemos parte. Já ouvi alguém dizer que brasileiro só é solidário no CÂNCER. Talvez por que tem medo de injuriar o infortúnio da vítima, mas aqui e acolá ainda se ouve dizer: “tá vendo, foi fazer isso ou aquilo e eis o resultado” e é que a bem da verdade já vi isso ser pronunciado sob um sorriso maliciosos vindo da boca de “uma santa”. Vai entender!?
    Por isso e por umas tantas outras, sala de aula, nunca mais !!! Eu fiz das ruas minha sala de aula, ou ao menos espero fazê-lo, o diabo é que, assim como uma qualquer outra categoria, continuo precisando de bancos e de reservas e não sou treinador de footbal.
    Mas mudando o assunto, um dia destes vi um feirante apanhar uma embalagem de plástico, projetada sabe-se lá por quem (exemplar na arte da má educação) sob a calda imunda de lama que escorria em direção ao esgoto e eu ali parada a esperar que o semáforo “abrisse”, intrigada com aquela visão, sem saber ao certo o que desejava fazer, continuei observando-o; ele recolhera um descartável e calmamente o empilhou sobre a sua banqueta de vendedor informal. Aquilo foi demais e eu tinha bem pouco tempo para intervir, pois em geral nesses casos a conversa fica longa, rs. Chamei a atenção do vendedor e logo imaginei se a minha mãe, a minha filha, parente ou mesmo os desconhecidos que observavam a cena, o que diriam/dirão? Um tanto quanto indecisa, pensei e decidi que não poderia me furtar, então lhe disse clamando pelo bom senso: – Senhor, se colocares tuas frutinhas nesse recipiente, creio que alguém vai ficar doente. E ele apressadamente respondeu: Vou levá-las para casa, prá lavar. É assim que sempre faço. Dei partida e meio acreditando e meio reticente, ainda pude ouvi-lo: Oh !! E levantou um recipiente que conclui ser de água sanitária. De início eu acenei positivamente erguendo meu polegar, mas logo me sobreveio a pergunta. Por que a água sanitária não está em casa se os recipientes lá serão lavados? É isso aí, se não cuidarmos, todos, como é que vamos tomar nossos sucos com aquelas frutinhas que julgamos tão saudáveis, sempre comercializadas em feiras livres? É necessário uma revolução cultural, eu diria. Mas cá entre nós, que “adoramos uma polêmica”, cá com os meus botões, onde estão as pessoas que assumirão tal empreitada? Isso é educação inclusiva !!!

  2. Angela Ghiringhello Haiashida disse:

    Realmente!Há muitos professores que exercem a sua profissão com o único objetivo de “ganhar seu dinheiro” e esperar pela aposentaria…As crianças são vistas como “monstros” que estão na escola só para infernizar a vida do professor.Não há comprometimento ,nem com as crianças consideradas “boazinhas”.Esse tipo de pensamento atrapalha muito,até os professores que estão realmente engajados no trabalho de educar.

  3. Mari

    Bonito este texto. Me despertou vários questionamentos, vem embebido da intensidade dos encontros. Delicado pensar nos educadores: fundamental que façam um investimento naquela criança para além dos cuidados higiênicos, da sobrevivência. Algo de pessoal é imprescindível (até lembrando de Spitz que fala do hospitalismo, as crianças que morriam, paravam de chorar pela falta de um envolvimento, vínculo com alguém que lhes desse um lugar, que as desejasse), porém qual/quais os limites? E, como sustentar espaços em que esses limites-peles, que se desfazem e fazem em cada caso, possam ser compreendidos e cuidados? Enfim, muitas perguntas pra seguirmos pensando!

    1. Mari disse:

      Oi! Bonito seu comentário também! Realmente Spitz tem tudo a ver com minha preocupação. E também os educadores. A mãe quando cuida de seu bebê fica entregue a ele. Mesmo quando a criança cresce, há momentos de total entrega. Será que educadores, em seu emprego, remunerado (mal, muitas vezes), com suas histórias também muitas vezes difíceis, com muitas crianças para cuidar ali, conseguem ter momentos de entrega total? Momentos em que conseguem passar segurança para esta criança, que ela tem com quem contar? Penso que isso deve ser bastante desgastante!! Especialmente com crianças mais agressivas, que testam a capacidade do adulto de suportá-la: “quando é que vc também vai me dizer sai daqui?” Como se fosse a única coisa que ela pode provocar no outro… Esses testes mexem tanto com a gente… Além das condições precárias da casa e equipe muitas vezes… puxa… realmente cuidar destas crianças passa por cuidar destes espaços e destes adultos responsáveis por elas! Além das escolas… Muito trabalho!! Obrigada pelo diálogo!

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