Formação Profissional


Um serviço de proteção ESPECIAL, por Melissa Terron


Melissa Terron

REFLEXÕES DE UMA ASSISTENTE SOCIAL EM SERVIÇO DE ACOLHIMENTO PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Quando tivemos a ideia de escrever um post no blog, fiquei muito feliz e confesso que com um enorme frio no estômago. Primeiro por que expor a EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL dentro de uma casa de acolhimento, não é tão simples, falamos de um serviço de alta complexidade, da proteção especial, onde lidamos diariamente com histórias complexas. Entendo que atuar na proteção social especial, significa também ser um profissional especial. Segundo expor suas angústias; dúvidas; questionamentos e claro conquistas, é tirar a carcaça de técnico, do profissional que “tenta” capacitar-se ao máximo, para mostrar que antes de sermos qualificados, somos seres humanos e também em desenvolvimento, pois nunca me considero desenvolvida, formada, estamos aprendendo sempre. E a cada dia que passa tenho a convicção, que esta área não é para amadores. E claro que aceitei escrever. Porém vai ser difícil, pois alguém conhece alguma Assistente Social que fale pouco?

E queridos colegas do acolhimentoemrede, obrigada por todas as respostas, trocas e aperfeiçoamento da atuação de todos envolvidos nesta rede. Foi a partir deste grupo que apreendi o quanto é importante e necessária nossa atuação. O quanto é preciso caminhar e claro compartilhar!

Pretendo mostrar que a sensibilidade, a paixão pelo trabalho e a humildade, são quesitos fundamentais para sermos capazes de por em prática toda teoria que aprendemos na graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, etc e tal. Mas vamos ao trabalho, e também como minha “mestra” em blogs Mônica Vidiz deu a DICA, devo apresentar-me. E não poderia fazer de outra forma, se não como aprendi com Maria Lucia Martinelli.

– MUITO PRAZER SOU ASSISTENTE SOCIAL! Recém-formada. Isso mesmo, quase um “bebê” do Serviço Social, talvez alguns digam, assim como já me disseram. – Ahhh, agora está explicado, novinha, cheia de empolgação, deixa vir o cansaço histórico! Sinto muito meus colegas, primeiro porque não sou tão novinha assim, e segundo, não me deixo abater pelo cansaço histórico, pois toda história pode ser transformada – se preciso for. E transformei minha história. Mas também não posso ser injusta com os colegas “cansados”, atuamos em uma área complexa, onde as decepções são muito maiores que seu salário – este é de amargar. E com mais agravante, nosso trabalho é interrompido, sabotado ou nem um pouco valorizado, não raramente, por interesses políticos, partidários ou “simplesmente” porque lidamos com a população excluída, e excluída significa para a maioria, estar fora e de vez! E me digam, não dá para cansar?

Iniciei atuando como voluntária em duas casas de acolhimento na Região do ABC, bem no inicio da faculdade, errei muito, e aprendi mais, principalmente que atuar com “assistencialismo”, “piedade” dos “pequenos abandonados”, não é atuar em suas garantias de direitos, em seu desenvolvimento digno. Quando a faculdade liberou o estágio prático, comecei em um hospital de dependência química e psiquiatria, desenvolvi projetos para a comunidade e para os adolescentes que não eram atendidos no hospital, atendia diariamente famílias que solicitavam vagas filantrópicas.

Em abril de 2010 fui chamada para estagiar no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), atendia famílias com crianças e adolescentes em situação de risco, especificamente com histórico de violação de direitos, sobretudo violência sexual.

Encerrei meu estágio desenvolvendo atividades no Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil (PETI). Aconselho meus colegas que irão se formar buscarem uma oportunidade de estágio neste espaço, este é o melhor local para estágio, e com certeza fui privilegiada pela equipe que me supervisionou. E quinze dias após me formar, iniciei como técnica na casa de acolhimento que hoje estou. E, é aí que começa essa história, recém-chegada na casa, se deparando com muitos “cansaços históricos” , falta de experiências, minhas e de outros, mesmo porque o fato de algumas casas de acolhimento terem técnicos, é recente.

Essa obrigatoriedade de técnicos nas casas de acolhimento, é uma exigência recente, após a nova Tipificação de Serviços Socioassistenciais, e com as mudanças, bem vindas, da Lei 12.010/2009, sem contar que o Estatuto da Criança e do Adolescentes (ECA) é ainda muito desconhecido ou mal interpretado pela maioria das pessoas , inclusive os que atuam nessa área.

O maior desafio pra mim vem de como lidar com subjetividades, conseguir conciliar capacidade técnica com capacidade emocional quando atuamos tão próximos da realidade das crianças, adolescentes e suas famílias (quando alguns ainda as têm). Entendo que somos profissionais dentro da casa, e não seus familiares ou possíveis familiares. Mas como conviver diariamente e não se envolver emocionalmente? Ou ainda como dividir seu dia, estar todos os dias dentro da CASA deles, não querendo formar vínculos? É obvio que devemos ser profissionais, mas se não tivermos empatia, um profundo respeito pelo próximo, por TODOS na casa, seremos míseros profissionais que adequamos os serviços para nós e não para as crianças e adolescentes.

Percebi o quanto é árduo este trabalho, primeiro porque ele demanda inúmeras tarefas: entrevistas; relatórios; PIAs; estudos de caso; busca pela rede; reuniões; visitas domiciliares; audiências; encaminhamentos, e outros instrumentais possíveis para buscarmos a superação desta realidade para cada que ali estão. E eu como assistente social, trabalho seis horas diárias, carga ideal para minha pessoa, mas profissionalmente inviável. Segundo, ainda vivemos constantemente o desafio da prática profissional com o princípio do amor ao próximo. Ufa! Por isso ele é ESPECIAL.

Recordo-me da colocação de um colega da Rede, Eduardo, que dizia assim: “Precisamos fazer um difícil, mas importante, trabalho de envolvimento de todos os responsáveis pelos problemas”. Adorei isto! No momento era exatamente o que pensava, e veio um dos primeiros questionamentos: como fazer para que TODOS os envolvidos atuem em rede? Como utilizar de nossos “instrumentos de trabalho” e não nos esquecermos de que trabalhamos com crianças e adolescentes que tiveram seus direitos ameaçados ou violados de várias formas e em todos os sentidos? E não tratar crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional como instrumentos!

É muito difícil fazer com que alguns entendam que sua ação nessas circunstâncias é difícil, porém essa mesma ação profissional é um importante dispositivo de atuação e reflexão profissional! FÁCIL, lembrem-se já disse anteriormente, amadorismos aqui não dá! Desculpem se radicalizei, mas sinto um profundo incômodo por ver que muitas pessoas que têm contato, ou atuam nessa área, normalmente iniciaram por questões pessoais, benevolentes e quando se deparam com a prática profissional, acabam colocando suas questões morais em primeiro lugar, criando pré-conceitos sobre as famílias, crianças ou adolescentes, principalmente daqueles que trazem uma história mais complexa. Aí observamos as sabotagens inconscientes do seu fazer profissional. Não querendo “mexer” no que não lhes diz respeito, no que é muito complicado. Sinto muito, nada será construído, transformado se não questionarmos aquilo que está impregnado CULTURALMENTE, e isso só poderá ser feito se tivermos qualificação profissional para criticar, questionar e sem duvida transformar.

Portanto, termino este longo POST perguntando: como é que atuamos em questões tão complexas, deixando de lado esta instrumentalização das CRIANÇAS E ADOLESCENTES, que são nosso INSTRUMENTO de trabalho?

Melissa Terron

Assistente Social


E você, o que acha?

  1. Cássia Nascimento disse:

    Melissa Terron,

    Obrigada por compartilhar suas reflexões. Seu depoimento demonstra seu envolvimento pelo ser humano. Lindo e muito adequado ao que penso, sinto e vivo. Como já disse Quiroga – O Astrólogo: “A Vida sempre é antes, durante e depois de tudo, e além disso é inquieta, circula no infinito e infinitesimal Universo produzindo a diversidade dos mundos e, ao mesmo tempo, permanecendo além, porque é Maior”. *Do artigo SINCRONIA – Faze a tua parte, para ser inteira – 13/5/2014.

    Meu abraço,
    Cássia Nascimento

    1. Melissa disse:

      Cassia, de fato atuar nesta area nos traz diversos questionamentos, hoje após um bom periodo deste post, confesso que acrescentaria novas inquietações, novos desafios, novas capacitações, e novos ares….Seguimos minha querida. Muito obrigada

  2. shirley van der zwaan disse:

    Achei muito com seu texto , já fui uma criança institucionalizada, há 30 anos advogada, e tarbalho como voluntaria no Laços de Ternura Grupo de Apoio a Adoçao, grupo em que divido a coordenaçao com Maria Ines e Kelly. Achei seu texto bastante rico e em seu teor existe experiencia que vale para muita gente. Parabens. Bjos Shirley van der Zwaan

    1. Melissa disse:

      Shirley de fato o que vivenciamos dentro das casas de acolhimento nos enriquece profissionalmente e pessoalmente. Fico feliz que tenha chegado até você. Que mesmo voluntariamente atua com a equipe maravilhosa da Maria Inês. Obrigada Beijos

  3. Angela disse:

    Melissa, parabéns pelo seu post! Seus ideais são louváveis e realmente espero que você não se deixe sucumbir pelo desânimo. Sua jornada na área social já é de longa data, muito antes de sua formação técnica. Escolher essa área como campo de trabalho já é por si só um grande desafio. Ser agente de mudança de um sistema cristalizado é para pessoas especiais, que tem garra, vontade e acima de tudo amor pelo que faz.
    Que o seu ânimo, ousadia e amor contagie muitos e transforme o “cansaço histórico” em “espírito de equipe”.
    Minha querida, deixo aqui minha admiração e votos de sucesso em todas as tuas empreitadas.
    Conte comigo sempre.
    forte abraço,
    Angela Bossolani

  4. Priscila Lemos de Freitas disse:

    Melissa, lidar com essas realidades institucionais é um grande desafio, pois temos uma grande e forte herança histórica de segregação, opressão, estigmatização e mortificação desse público.
    Ainda hj vivemos isso na falta de capacitação dos profissionais que lidam com esse público, no descaso e falta de política pública efetiva para a infância e juventude, dificuldade o trabalho em rede, entre outros.

    Fico feliz que você esteja neste abrigo, que possui tantas carÊncias, pois tem conseguido refletir sobre import^ncia da humanização desse espaço. Então, sinta-se provilegiada, pois vocÊ tem um grande desafio: colocar em evidÊncia essas carências e ajudar os outros profissionais (técnicos ou cuidadores) a construírem novas perspectivas. Não é uma tarefa fácil. É preciso coragem, fé e mt persistência.

  5. Vaine Santana Fontes disse:

    Não poderia esperar algo diferente de você, pois tive o privilégio de desfrutar da sua convivência. Mel um profissional ético e comprometido nunca se cansa em exercer de fato sua profissão, é fato que as vezes bate aquele desânimo, mas é momentâneo, e logo somos puxados e impulsionados para a realidade de nossas escolhas. Parabéns pelas reflexões do post. Você é uma profissional comprometida que vem adquirindo experiências e percebe que quando toca um ser humano há uma troca importante no “fazer”,proporcionando de forma construtiva a transformação no seu “SER”. Beijinhos encantados!!!! Vaine S. Fontes.

    1. Maria Inês Villalva disse:

      Melissa, primeiramente quesro agradecer por suas palavras carinhosas em relação à minha atuação profissional. Saiba que continuo aprendendo e estou feliz com a possibilidade de tê-la em um dos encontros do Grupo de Apoio à Adoção, certa de que sua experiência acrescentará muito no meu aprendezado. Como estamos com a programação fechada para o primeiro semestre, gostaríamos de combinar sua participação para os meses de julho ou agosto. Nossos encontros acontecem geralmente no último sábado de cada mes, as 9:30 no auditório da Creche Amália Rodrigues, por favor encamionhe seu contato telefônico para: mariainesfeasa@terra.com.br com cópia para: kellyfeasa@terra.com.br. Assim poderemos acertar a data e conversarmos a respeito do objetivo da sua participação.
      Com gratidão e carinho.
      Maria Inês

    2. Melissa disse:

      Obrigada Vaine, mesmo a nossa profissão não ser a mesma, tive o privilegio de ter você como uma “supervisora” indireta.

  6. Parabéns pelo post Melissa, como sabe tenho o mesmo pensamento que você, e concordo com você, e acho que tem muita gente que esta nesta área por falta de opção e não por amor a profissão e por respeito ao próximo, e também passo e sinto as mesmas coisas que você, trabalhando com pessoas que não sabem o que é e para que serve uma casa de acolhimento, acho que todos nós devemos sim expor nossas idéias e nossas criticas, doe a quem doer, sem é claro julgar a atitude de um ou outro, todos somos livres para nos expressar, sempre respeitando o próximo, e com estas atitudes tenho certeza de que chegaremos a um senso comum, e a um objetivo único que é o de levar uma vida melhor e cuidar do bem estar de nossas crianças, abraços.

    1. Melissa disse:

      Marcio, muito obrigada! É muito gratificante ter um colega de trabalho compartilhando as ideias e na mesma direção. Venho aprendendo muito nesta rede. Uma das coisas é: Seguimos JUNTOS!

  7. Cintia Bordwell disse:

    Que texto importante. A assistência social é uma bela e necessária profissão. Tenho orgulho de ter amigos q trabalham nessa área. Sempre aprendo muito. Parabéns.

    1. Maria Inês Villalva disse:

      Olá Melissa, foi um enorme prazer reencontra-la ainda que virtualmente. Sou Maria Inês Villalva trabalho como coordenadora técnica na FEASA, coordeno o Grupo de Apoio à Adoção “Laços de Ternura” e também estou na coordenação do CMDCA-SA, p0enso que com essa descrição você terá facilidade em recuperar minha imagem na sua memória, não é ? Gostei muito do seu texto, é muito gratificante termos você integrando a nossa classe de assistentes sociais, principalmente depois de nos depararmos com profissionais que saem da graduação tão despreparadas tecnicamente. Trabalhar em unidade de acolhimento institucional é para mim, o maior de todos os desafios, por isso respeito e valorizo os profissionais que se lançam nessa dura, difícil e complexa empreitada. As questões que envolvem o abandono, negligência e maus tratos de crianças e adolescentes merecem uma atenção especial por parte dos poderes constituídos e remuneração justa aos profissionais que nesta árdua tarefa militam. Aproveito para fazer um convite para que você Melissa participe de um dos encontros do nosso Grupo de Apoio à Adoção para falar, com pais e pretendentes adotivos, sobre sua experência na coordenação de uma
      unidade de acolhimento. Aguardo sua manifestação deixando meu abraço carinhoso.

      1. Melissa disse:

        Querida Maria Inês, confesso que não teria necessidade em descrever muito sobre você, (para mim), pois tenho uma profunda admiração por você e seu trabalho. E ter suas colocações, seu comentário em um pequeno “post” meu é uma honra! Ainda mais vindo de uma grande profissional. Concordo quando você diz que o acolhimento é o maior desafio, temos muito que caminhar ainda, tanto para as crianças e adolescentes como para os profissionais. E quanto ao convite para participar de uma reunião no Grupo, pode contar comigo! Irei com maior prazer. Só tenho uma correção, Maria Inês, não estou como coordenadora da casa e sim como Assistente Social. Abraços e nos falamos.

    2. Melissa disse:

      Obrigada Cintia, de fato é uma bela profissão. Assim acredito, e não deveria ser diferente, não é? Afinal defendo o que acredito, sempre! Muito obrigada

  8. Ligia disse:

    Muito prazer, Melissa. Aqui quem vos fala, é Lígia. Sou psicóloga. Adorei seu texto. Recém-formada na graduação, mas madura em reflexões e preocupações bastante pertinentes. Acho que realmente temos que ter cuidado com a “instrumentalização” das crianças e adolescentes, pois nos casos de acolhimento, na maior parte das vezes, elas já foram coisificadas e colocadas em condição de objeto por situações de violência.
    Também achei interessante quando vc coloca a nós, profissionais, como seres “em desenvolvimento”, e questiona a capacidade emocional, que vai além da capacidade técnica. Esta é uma questão que me preocupa bastante, quando vejo profissionais que passaram em concursos públicos, trabalhando com questões tão complexas. Fica claro que o conteúdo técnico nem sempre é suficiente, visto o adoecimento dos profissionais e a reprodução da violência entre a equipe e os diversos serviços que compõem a rede.
    Parabéns por tocar em pontos tão delicados e complexos.

    1. Melissa disse:

      Ligia, agradeço seu comentário, ainda mais de uma profissional da área e como pessoa militante na defesa das crianças e adolescentes. De fato a instrumentalização, coisificação, só poderão ser extintas, (se de fato conseguirmos) se todos tiverem ínerentes a eles (profissionais) uma capacidade maior de respeito ao próximo. Obrigada novamente, e não seríamos profissionais sociais se não tocassemos em pontos tão complexos, não é mesmo?

      1. Melissa disse:

        Ligia, agradeço seu comentário, ainda mais de uma profissional da área e como pessoa militante na defesa das crianças e adolescentes. De fato a instrumentalização, coisificação, só poderão ser extintas, (se de fato conseguirmos) se todos tiverem inerentes a eles (profissionais) uma capacidade maior de respeito ao próximo. Obrigada novamente, e não seríamos profissionais sociais se não tocassemos em pontos tão complexos, não é mesmo?

  9. Miriam Elaine Modenez disse:

    É isso aí.Como já disse anteriormente, essa profissão é para Anjos.

    1. Melissa disse:

      Miriam, obrigada por seu comentário, porém tenho que dizer que estamos longe de sermos anjos….rs

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