Convivência Familiar e Comunitária


A técnica disse que “família que visita de vez em quando não pode adotar”, por Isabel Menezes


RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA EM APADRINHAMENTO AFETIVO

Isabel Menezes

Confesso que não tenho muita familiaridade com o termo, pois utilizava mais o termo “família de apoio” na minha experiência de abrigo.

Famílias de apoio” eram aquelas que tínhamos como voluntários e ajudavam em várias atividades com as crianças e adolescentes na casa; traziam doações para a casa, conheciam a maioria das crianças e adolescentes, enfim, faziam parte da dinâmica funcional de uma entidade de acolhimento. Algumas famílias eram autorizadas a sair a passeios programados com algumas crianças ou com todas, quando eles conseguiam ingressos para parques, cinemas, circo, etc. Nestas atividades, sempre eram acompanhados com transporte e educadores do abrigo.

Essa interação era bastante positiva, pois as crianças e adolescentes passavam a ter algumas pessoas como referências, principalmente para aqueles que não tinham visitas de familiares.

Aconteceu um caso bastante peculiar onde tinha na casa em que trabalhei: havia dois irmãos – a menina mais velha (que chamarei de Bia) apresentava comportamento problemático na escola e na casa, conforme relato dos funcionários; e o menino mais novo (que chamarei de Beto), sem queixa de relacionamento na casa. Eles eram irmãos por parte de mãe; a família (mãe), quando cheguei à casa, já estava em processo de destituição do poder familiar, impedida de efetuar visitas, etc. Este já era um dado relevante para refletir sobre o porquê de tais dificuldades comportamentais/relacionais. A escola também tinha uma forma de trabalhar com as crianças muito negativa, pois tratava-as como “as crianças do abrigo”.

A Bia tinha notas baixas, arrancava as páginas do caderno, não se concentrava nas lições; enquanto o Beto não tinha grandes dificuldades no desempenho escolar.

Passados aproximadamente um mês, chegou um casal de voluntários na casa e fui orientando para que os mesmos trabalhassem atividades recreativas misturadas com pedagógicas aos finais de semana, quando eles poderiam vir à casa.

No final do ano, algumas crianças saem para passar datas festivas com a família. Para outras, como Bia e Beto, que não tinham família, recorríamos às famílias de apoio. Foi então que os pais de uma voluntária que já estava engajada em parceria com a casa, se prontificaram a levar o Beto e a Bia. A princípio, me coloquei reticente em deixar que a Bia fosse junto, pois temia que ela não se adaptasse, que a família não daria conta diante das demandas que ela poderia apresentar em um ambiente fora do abrigo, mas ao mesmo tempo era visível a “sintonia” que foi sendo construída, principalmente pela presença da filha deste casal, que já estava familiarizada com as crianças e adolescentes da casa.

Enfim, Bia e Beto foram para a casa desta família de apoio, ficaram apenas os dias de Natal e Ano Novo e retornaram ao abrigo. A convivência na casa e com os familiares foi muito boa com ambos irmãos.

Posteriormente, o casal se “engajou” mais como “família de apoio”, mas era visível o interesse deles pela Bia e o Beto. A família se encarregou de contratar (pagar o tratamento) uma Psicóloga para a Bia, de acompanhar a transferência escolar dela, pois a mesma passaria da 4ª para a 5ª série e mudaria de escola. Aos finais de semana, a senhora acompanhava as atividades da escola que a Bia tinha pendente, enfim, tornaram-se uma referência para os irmãos.

Neste contexto, a Técnica da Vara de Infância, comunica que o processo de destituição da Bia e do Beto tinha finalizado e que as crianças estavam disponíveis para adoção.

Confesso que fiquei impactada com tal notícia, pois não tinha idéia de que seria tudo tão rápido. A Técnica da VIJ disse que trabalharia contatos e cadastro para conseguir uma família para os irmãos. Ela considerava que seria muito difícil, em função da idade das crianças (na época eles tinham 9 e 11 anos). Meio reticente, comentei com a técnica sobre a família de apoio que os acompanhava há alguns meses (2/3 meses), mas a Técnica disse que “família que visita as crianças de vez em quando não pode adotar, que adoção era algo muito mais amplo”. Diante desta fala da Técnica, também não considerei a possibilidade da família adotar os irmãos. Mas, me mantive incomodada e sentia que precisava falar este dado novo para a família que acompanhava tão proximamente a vida dos irmãos. Quando comentei com a senhora, disse que as crianças estavam em via de serem adotadas.

A senhora ficou parada, pensou e, depois disse que não poderia assumi-los naquele momento devido à filha mais nova, que talvez não aceitasse, e às condições financeiras da família. Pontuei a ela: era importante que ela e o marido soubessem deste dado, pois a qualquer momento as crianças poderiam ir embora, mas que eu gostaria de tê-los na casa como “famílias de apoio”, afinal outras crianças/adolescentes precisariam muito de um suporte como o que eles estavam dando aos irmãos. Enfatizei que, caso os irmãos fossem adotados, que eles estivessem preparados para o desvinculamento afetivo. Pedi sigilo, pois as crianças ainda não sabiam e, eu pretendia conversar mais com a Técnica da VIJ para pensarmos como daríamos esta notícia à eles. Como ambos já estavam em terapia, seria conveniente conversar também com as terapeutas.

Enfim, neste meio tempo, acabei saindo desta organização em função de uma outra proposta de trabalho. Entretanto, uns 30 dias depois, recebi uma ligação da senhora e a mesma me dizia que ela e o marido tinham decidido adotar as crianças e que já estavam em processo de acolher os irmãos na casa deles aos finais de semana. Disse que a filha mais nova tinha concordado e que os irmãos precisariam muito deles naquele momento.

Logicamente, fiquei impactada, gratificada e feliz com a notícia. Fiz alguns contatos com o abrigo e com família, alguns meses depois.

Recentemente, soube que houve muitos problemas de adaptação das crianças à família e a Bia manifestou desejo de retornar à situação de acolhimento. O Beto não queria, disse que desejava permanecer com a família, mas acabou retornando para o abrigo com a irmã. Retornaram para uma casa de acolhimento diferente daquela em que estavam; a família adotiva não pode vê-los por um ano, por determinação da VIJ. Somente quando a Bia pediu para ligar para a família é que houve autorização da VIJ para que os mesmos fossem visitá-los.

Acredito que ambos, família e irmãos (mais os irmãos, especificamente a Bia, do que a família) não estivessem preparados para viver em um ambiente familiar tão acolhedor como o que eles se depararam e talvez a Bia ainda conseguisse elaborar a “vida fora do contexto de acolhimento”.

Segundo o senhor que a “adotou” me disse, no novo abrigo onde eles se encontram, a Bia é a mais velha da casa e tem um cuidado muito grande com as crianças menores. Segundo ele, a história não acabou e ele e a mulher continuarão acompanhando estes irmãos, que os tratam como “pai e mãe”.

Esta experiência me trouxe o dimensionamento do cuidado que os profissionais que atuam no acolhimento institucional precisam ter com o “apadrinhamento afetivo”, por isto prefiro que as pessoas cheguem à casa, sem compromisso, como famílias de apoio, que estarão cadastradas e vinculadas a um projeto que a casa tenha, muito bem elaborado e planejado e, aos poucos vão se conhecendo mutuamente. Há pessoas em que é visível que não conseguem lidar com o sofrimento, com o abandono das crianças, e que não se sentem à vontade para se aproximar muito das crianças. Então, estas podem fazer outras tarefas, como: arrecadar doações, ajudar nos bazares, etc.

O vincular e desvincular neste contexto, sabemos que é algo como “pisar em ovos”, pois trata-se de vidas já tão calejadas, carregadas de históricos negativos, exclusão por parte da sociedade, e aí, de repente a criança se vincula, estabelece os padrinhos/famílias como referência e, depois os mesmos somem, não aparecem mais na casa, e as crianças voltam à estaca zero.

Isabel Menezes dos Santos é sócio-educadora e psicóloga e atua como coordenadora da Ação Socioeducativa.



E você, o que acha?

  1. Beatriz D.G. Pakrauskas disse:

    Vejo que na realidade, o trabalho deve ser simultâneo com a familia apoio em vista de acolhimento familiar e a criança/adolescente. Ambos devem saber o que condiz o acolhimento familiar e aceitar as condições. No caso de crianças que pela idade, não ha perspectiva de adoção, o acolhimento familiar é um espaço de resgate da dignidade, cidadania e bem-estar.

  2. Mara de Castro Valente disse:

    Observo que como coordenadora de um Abrigo vivenciei essa mesma história muitas vezes durante 08 anos que convivi com essa realidade. As histórias se repetem e Izabel tem razão em sua avaliação, concordo com ela, embora ainda, não saibamos como proceder com os vínculos estabelecidos com as famílias de apoio ou padrinhos e madrinhas afetivos.

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