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#rolounarede: amor, trabalho, vínculo e separação


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O AMOR BASTA?

O Marcelo enviou à rede um vídeo sobre o amor (http://vimeo.com/45718018#at=0) que rendeu uma rica e bela discussão, quando perguntou: “será que sentimos isso (amor) pelos nossos acolhidos?”. Marcelo foi o primeiro a se arriscar, dizendo que sentir amor é muito saudável, mas que não podemos deixar a emoção falar mais alto. “Os acolhidos não são nossos, precisamos prepará-los para a sua realidade e torná-los protagonistas de sua própria história. Sejamos amáveis e não amorosos”.

Renato replicou, problematizando “os acolhidos são e não são nossos. Enquanto estiverem conosco sobre nossa proteção são nossos sim, pois se não tiver dono, todos querem dar o pitaco, com uma receita para ensinar o serviço de acolhimento como educar. E só quem é dono, não deixa o traficante chegar. Nós enquanto guardiões temporários, temos este acolhidos como nossos e isso para todos os efeitos de direito”. Renato cita ainda Leonardo Boff, que coloca que para cuidar temos que ter sentimento de pertencimento:  “meus meninos e minhas meninas são meus quando estão comigo, pois é comigo e com minha equipe que eles podem contar. Dom Bosco, padre da igreja católica e educador, sempre alertou que o amor como pertencimento é o que nos faz acreditar no jovem”.

Renato lembra que a justiça delega aos profissionais do acolhimento uma grande responsabilidade, e que temos que cuidar com amor. Diz que se não houver o ingrediente do amor e da emoção, o trabalho é só um trabalho. “Pelo tempo que estou nisso, não acredito que só trabalho baste! É necessário afeto, ser dono como referência de fato, pois quem tem muitas referências, na hora que realmente busca, não consegue encontrar nenhuma, fica na dúvida de quem buscar”.

Novos ares chegam à discussão com a participação de Alice, que também recorre a Boff, que diz em seu livro Saber Cuidar que “o tu é parteiro do eu”. Isso nos dá a dimensão do quanto cada um de nós é apenas o que é por conta de um outro que nos reconhece como tal. “Se as crianças acolhidas não nos reconhecerem como cuidadores responsáveis e afetivos, não seremos nada dentro do serviço. Se, por outro lado, não os reconhecermos como pessoas únicas e diversas, também não serão ninguém, e não terão o pertencimento garantido pois não reconhecerão aquele lugar como seu – e a evasão será o caminho.”

No entanto, Alice se coloca contra a comparação direta do serviço de acolhimento com uma casa, lembrando que o espaço de acolhimento é privativo por ser o espaço de moradia das crianças, mas não deixa de ser um espaço público, por razão de que o serviço ali prestado ser de interesse público. “Há fiscalização, leis e regras públicas. A questão é construir esta fiscalização de maneira respeitosa e parceira, qualificada e adequada ao momento e aos moradores do serviço. A provável única saída para trazermos as crianças e adolescentes das mais diversas situações de fragilidades para a cidadania plena com direito a um olhar cuidadoso e um espaço de direitos é o afeto”.

Mas, afinal, o próprio nome “casa-lar” remete a um espaço familiar, residencial, não? Alice pontua que este é um nome técnico dado para chamar uma instituição de acolhimento, um nome dado para significar que a instituição pode e deve ser um local de moradia e de socioeducação. “Deve ser protetiva, aprazível, educativa e promover a socialização dentro da realidade de um mundo bastante difícil e complexo. Seus dirigentes são guardiões legais e têm compromissos legais a cumprir. Em tudo isto, assemelha-se a uma família. Com um detalhe importante: não é uma família e nem deve substituir a família. Deve cumprir o mesmo papel da família e não negar a história passada de cada criança. Deve auxiliar na elaboração desta história, ressignificá-la e instrumentalizar esta criança para o futuro. Casa lar, casa de passagem, abrigo institucional, familia acolhedora, todos estes serviços tem a mesma característica. Por outro lado, é o espaço de moradia dos acolhidos. Eles devem ter direitos sobre isto. Eu não recebo em minha casa quem eu não quero. Em minha casa, uma pessoa se torna inconveniente e eu posso exigir sua saída. Mas minha casa não é um espaço público. E o espaço do acolhimento é um espaço que presta um serviço público. E este serviço, e fomos todos nós que conquistamos isto na discussão da legislação, principalmente na 12.010, está sujeito a regras legais muito claras. Por isso, falei na construção de uma relação respeitosa com os parceiros, principalmente os fiscalizadores, MP, VIJ, CT e CMDCA”.

Marcelo concorda, dizendo que “somos prestadores de um serviço e para tal temos várias metas a serem cumpridas e que se nos envolvemos emocionalmente, corremos o risco de nos apaixonar por eles; não que não gostemos, mas não são nossos filhos e serviço de acolhimento não são vossas casas. Judiciário, conselho tutelar e outros serviços devem estar juntos nesta empreitada cujo único objetivo e a reinserção do acolhido na sociedade da qual ele pertence. Afeto é a melhor palavra a ser praticada neste serviço”.

Alice esclarece que não pensa que não devamos nos vincular afetivamente e correr os ricos da paixão. Diz que nós adulto precisamos saber que a vida é vínculos e desvínculos; aprender a exercitar as separações e os lutos decorrentes disso, que fazem parte deste trabalho. “Quantas pessoas já gostamos, nos apaixonamos, amamos perdidamente e foram embora? E estamos todos aqui, não é? Por que não exercitamos estas práticas de evolução com os moradores dos serviços então? Desde quando educar para a vida é proteger dentro de uma bolha?”.

Por último, Mônica lembra que, por sua condição complexa e excepcional, que é um serviço e não simplesmente uma casa, o amor por si só não basta. “É preciso uma equipe coesa, alinhada, capacitada, em que haja espaços de reflexão e diálogo, espaços de elaboração deste vínculo-desvínculo do qual você falou… Somos todos humanos; a nossa humanidade (amor) é por um lado o melhor que temos a oferecer às crianças e adolescentes – o pertencimento, o olhar individualizado, o colo, a possibilidade de elaboração de sua história a partir de um vínculo de confiança… Mas é também na humanidade onde mais podemos escorregar, tropeçar, atropelar: as próprias crianças e adolescentes!! Sem parâmetros técnicos, conhecimento do histórico da criança/adolescente, clareza da nossa função… O amor não basta”.


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