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#rolounarede: baixo calão, palavrão, injúria…


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ESTRATÉGIA OU DESCONTROLE?!Screen shot 2014-06-19 at 2.30.19 PM

Quando um orientador solta um “palavrão” (palavra de baixo calão) dentro do abrigo, como os acolhidos reagem a este comportamento? E a equipe técnica, como entende: como conduta imprópria, reação agressiva, descontrole emocional?” Assim começou a última e quente discussão que #rolounarede! Vamos à história: Eduardo explicou que a cena se deu entre um educador e uma adolescente de 14 anos, que apresenta comportamento agressivo, reagindo aos gritos e berros quando é chamada a sua atenção e utilizando constantemente os “palavrões” para se dirigir às outras pessoas.

O relato:
“Certo dia, o orientador informou à acolhida que não poderia utilizar o computador devido ao comportamento indevido que tem mantido dentro da casa. Furiosa, a acolhida começou a gritar e xingar o orientador. Em seguida o orientador, calmo, perguntou a ela: “Por que você esta gritando comigo ?”. Sem dar resposta, ela continuou gritando e xingando. Então, o orientador elevou o tom de voz e disse “Não sou seu colega de escola, da rua pra você gritar comigo!”. Exaltado, exclamou “Vai pra P… Q… P…!”.
Vale dizer que a discussão aconteceu na frente de alguns outros acolhidos e no momento do palavrão todos arregalaram os olhos e a adolescente protagonista parou a discussão na hora e se retirou. A adolescente se retirou e foi correndo atrás de outras duas orientadoras para relatar o ocorrido, dando ênfase apenas ao fato que o orientador mandou ela pra P…Q…P… – nesta hora, o comportamento dela foi descrito como de tranquilidade, calma ou vítima. De certo, ficou chocada e foi em busca de proteção ou apoio. Ouviu das orientadoras: “Mas você não fala palavrão, todo dia aqui na casa?”. Ao ouvir a pergunta, a acolhida se retirou e foi para seu quarto, onde refletiu sobre todo acontecimento. O orientador informou que 2 horas após a discussão, a acolhida o procurou para pedir desculpas e iniciaram a conversa sobre “o poder que uma palavra mau colocada tem”.
Primeiro ele explicou a ela que, quando uma pessoa lhe trata com educação e respeito você deve ser recíproca e tratar a pessoa com a mesma educação e respeito… Em seguida ele informou a adolescente que o palavrão foi de propósito para que ela percebesse o poder de uma palavra. Após conversarem entre os dois, reuniram todos os demais acolhidos para uma roda de conversa sobre o tema.
O orientador afirmou que o resultado dessa discussão foi muito interessante e baixou significativamente o número de palavrões dentro da casa. Eu perguntei se o orientador já havia soltado algum palavrão anteriormente a este episódio. Disse que nunca havia dito e que não tem esse costume… E aí, como vocês entendem esse episódio ?
O orientador deveria ter sido mandado embora por justa causa?
O orientador aproveitou bem a oportunidade para iniciar uma discussão?
O orientador deveria ser advertido ou suspenso pela equipe técnica?”

As opiniões sobre o tema foram diversas. A primeira a se pronunciar foi Alice, parabenizando o educador pela atitude e Eduardo pelo relato, e dizendo que o choque de realidade mostra-se um excelente caminho para “acordar” alguém para situações invasivas como esta. “Palavrão é sempre agressivo, ofensivo e invasivo. Temos o exemplo dos xingamentos à Dilma na abertura da Copa. Não entro em mérito outro que não seja uma agressividade inútil que denota falta de civilidade, educação e respeito ao outro como ser humano. Me chamou a atenção a sensibilidade  e o senso de oportunidade do educador que usou de um recurso que alguns achariam inadequado para “chegar” na empatia da adolescente. Pode até ser que ele possa pensar que fez algo impensado, que surgiu na hora, mas, pelo relato, me pareceu que foi pensado e usado como estratégia”.

Alice relembra a todos do ditado: “se eu fizer sempre as mesmas coisas, terei sempre os mesmos resultados” – aprovando assim o uso de estratégias ousadas para situações como esta, mas ressaltando também a importância de um plano B, C e D. O “choque de realidade” é apoiado por Marcelo: “nossos acolhidos muitas vezes não têm a noção do significado de um palavrão, por ser rotina em suas vidas. Às vezes a equipe precisa descer do salto e falar a mesma língua. Assim eles acordam”.

Propércio chega para temperar a discussão, com um posicionamento diferente, colocando que o uso do palavrão acaba por autorizar e até ensinar os abrigados que esta é uma estratégia. Corre-se o risco de que as próprias crianças e adolescentes justifiquem o uso de palavras ofensivas apoiados no fato de os adultos também as usam. Propércio questionou ainda a conduta do orientador ao dizer que se alguém te trata com respeito, você deve ser recíproco. “É uma versão melhorada do “olho por olho, dente por dente“, pois deixa subentendido que somente devemos tratar bem quem nos tratou bem primeiro”. O diálogo e a conversa foram pontos fortes, segundo ele, mas ainda teria faltado um pedido de desculpas à adolescente, dizendo que é um ser humano e que também erra, e que iria se esforçar para não usar mais este tipo de palavra. “Eu já discuti com adolescentes, já briguei, levantando o tom de voz, e mesmo deixando claro que eu estava muito nervoso e irritado, mas sempre usei a prática de depois chamar e pedir desculpas. Isso serve muito na minha casa, para os meus filhos também, pois tira a lógica do “nós adultos somos perfeitos em educar os adolescente imperfeitos”. Poucas coisas mostram tanta força como quando pedimos desculpas pelos nossos erros”.

Outros membros da rede compartilharam experiências similares que viveram nos serviços em que trabalham. Lisete contou que quando, durante uma discussão, uma adolescente desqualificou a sua mãe, ela abriu o fato de que, assim como a mãe da adolescente, a sua própria também era falecida. “Então nós conversamos e pedimos desculpas; ela disse o quanto machuca ficar xingando e falando palavrão. Ela mudou seu comportamento no serviço e passou ser uma pessoa que colaborava e até orientava os outros educandos quando estavam nervosos”. Rossane contou que ao ser afrontada de forma acintosa, respondeu no mesmo tom e depois de uns dias elaborando o ocorrido, chamou a adolescente para conversar e ambas pediram desculpas. “Ela porque havia me agredido verbalmente de forma gratuita, e eu porque entendi que naquela atitude tinha um grito de socorro… E depois disto, até a saída dela por ter atingido a maioridade, tudo ficou mais tranquilo. Por vezes o tratamento de choque é a única saída. Acho que neste caso descrito, só faltou o pedido de desculpas por parte do orientador”.
Quem trabalha com este serviço e não foi, vez ou outra, mandado para algum lugar  estranho, solicitado a tomar em outra coisa?”, provocou Renato. Agir com tolerância,  através do exercício diário e com treinamento, têm sido a estratégia de sua equipe. Ele  traz alguns exemplos de respostas que têm dado, na tentativa de reforçar o valor da  autoridade afetiva: “vou para aquele lugar, mas você precisa fazer o que estou pedindo”,  ou “já estou tomando, mas preciso que você faça isso”. Não levar para o pessoal é a dica  de Renato para que se evite partir para o mesmo nível de agressividade – algo difícil, mas  que não pode acontecer e deve ser controlado. “É por este e outros motivos que a política  do SUAS coloca a formação contínua, a supervisão e o aprimoramento”.

Screen shot 2014-06-19 at 2.29.59 PMÉrica autenticou a fala de Renato, mas alertou sobre o risco de que “alguns profissionais  podem sim considerar como estratégia , no entanto outros sem o mesmo entendimento  podem utilizar essa postura de forma banalizada, comprometendo o trabalho  desenvolvido em equipe”. Já Camila fez referência à “técnica do espelho”, em que  mostramos ao outro sua própria atitude, autenticando a atitude do orientador (ela citou o  vídeo neste link). “Porém, não dá pra sair por aí tomando atitudes assim no cotidiano,  acredito que este “insight” se é que posso assim dizer, veio após longas tentativas de intervenções a respeito e penso que com um vasto conhecimento sobre o repertório de comportamentos da garota. Quero também registrar que esta atitude é bem diferente de um xingamento, pelo menos é o que soa aos meus ouvidos. Existem educadores que xingam, que comentem violências verbais cotidianas no ambiente do serviço de acolhimento e estes sim merecem todas as consequências aqui questionadas por você. Eu já vivi uma situação próxima a esta e eu posso afirmar Alice, não tem plano B, C ou D – é algo muito intuitivo, do calor do momento e considero que só assertivo se vier imbuído desta apropriação da história e do contexto como um todo”.

Alice volta para nos lembrar que é sempre temerário tomar uma atitude mais ousada. “Na maioria das vezes, a reação violenta alimenta uma contrarreação mais violenta ainda”. Ela deu como exemplo Nelson Mandela e Mahatma Gandhi para frisar que atitudes não-violentas trazem um exemplo mais positivo para a construção da sociedade:  “pode demorar mais, pode parecer que seus efeitos nunca acontecem, mas sabemos que acontecerão mais cedo ou mais tarde. O ser humano aprende por exemplos e atitudes e não por lindos discursos. Nosso exemplo dentro do serviço de acolhimento é fundamental para criar novas atitudes de enfrentar e ver a vida”.

Finalizamos este #rolounarede com a fala de Alana, que estabeleceu um paralelo entre a situação discutida e algo que vivemos atualmente no contexto coletivo: “Que interessante essa discussão estar rolando aqui na rede e estarmos discutindo algo do tipo (guardadas as devidas proporções!!) socialmente, após as vaias e os xingamentos à Presidente Dilma no jogo da copa. Não quero levar a discussão para esse lado aqui na rede, mas temos aí mais elementos pra conversarmos com os acolhidos e entre equipe, não é? Várias pessoas escreveram artigos, saíram reportagens sobre isso em revistas e jornais com posicionamentos interessantes (outros nem tanto…). Obrigada por compartilhar essas experiências, vamos aprendendo!”.

 


E você, o que acha?

  1. Alice disse:

    A sistematização do relato ficou ótima,com clareza e objetividade, Monica. Parabéns.

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