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#rolounarede: desacolhimento, emancipação, desligamento,…


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PROVOCAÇÕES

obra de kandinsky

Tudo começou quando Claudia solicitou ajuda para uma adolescente que seria desacolhida em Abril, e precisava de alguns móveis e eletrodomésticos para a casa. O Renato aproveitou a oportunidade e lançou o questionamento:
“Será que não podemos mudar o nome de desacolhimento para emancipação? Acredito muito que o nome que damos as coisas nesta área é o que define o processo”. A Jane logo apareceu, observando que usa o termo reintegração familiar e não desacolhimento, quando do retorno para a família: “pois com o termo desacolhimento parece que o retorno é para o nada”.

Alice questionou: “Mas emancipação não seria um tanto forçado para jovens vulneráveis aos 18 anos? Nem nossos filhos estão “emancipados” nesta idade….”. Renato respondeu, lançando outras perguntas: “O que resta a eles? Judicialmente estes jovens sujeitos têm prazo de validade. Poucos jovens que estão no seio de uma família vão passar por isso, concordo, mas que política os ampara enquanto acolhidos após os 18 anos?”.

Ele defendeu o termo emancipação, destacando que assim representamos os jovens como sujeitos de potência, e não como coitados: “Talvez assujeitados, e cabe a nós a missão de contribuir para formação de sujeitos, resilientes e com autonomia, e não vejo como despertar autonomia com postergação”.

Renato explorou ainda mais a questão, lembrando que estes jovens precisam crescer forçadamente e que isso resulta da falta de profissionalismo, ausência de estudos e formação da parte dos profissionais: “Não vejo outra opção se não mudarmos nossos modos de trabalho com os desiguais deste país. Não há espaço mais para achismos infundados. Quem paga o preço são eles e elas – pequenos “sujeitos” (?) de histórias rompidas. Estou fadado de ver e me deparar com profissionais cheios de verdades absolutas e me incluo nisso. Ah! Ausência de humildade”. Desculpando-se pelo desabafo, nos convoca: “Assim como nosso queridos e queridas amigas que estão sob medida protetiva, precisamos crescer e tem que ser forçadamente”.

Alice aprofundou a discussão, considerando os diversos fatores envolvidos na resiliência ao qual Renato havia feito referência. Partindo da premissa da capacidade de plasticidade mental das crianças e adolescentes, o que futuramente vai se transformar em resiliência, lembra-nos de que “não podemos também, de maneira alguma, desprezar a realidade de que a violência doméstica constante, o stress do medo, o abuso e violência sexual são fatores presentes na vida destas crianças e que fazem diferença na saúde mental deles. Vão se reorganizar, ressignificar estas violências para sua vida futura? Depende. Alguns completamente e outros farão apenas redução de danos. Parece cruel?  Parece sim. Mas não podemos ignorar que estas violências provocam danos cerebrais e que, às vezes, são irreversíveis. Por isso, nosso investimento deve ser total na primeira infância, pois é nesta fase que a plasticidade mental é maior, mais propícia a ressignificar um possível futuro de dor e frustrações. E por isso devemos questionar muito os acolhimentos na primeira infância. Os quadros de cuidados que temos nos serviços de acolhimento de primeira infância são perversos porque violam o direito a cuidados personalizados, pessoalizados, afeto, cuidados, atenção individualizada que fazem a diferença no desenvolvimento físico e mental da criança”.

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Exemplificou com o caso de Roberto Carlos Ramos (do filme baseado em história real, “O Contador de Histórias”): “fica muito claro na história dele que sua ressignificação da vida foi possível baseada em sua convivência até os seis anos com os cuidados, amor e carinho de sua mãe biológica que o colocou na FEBEM para enfrentar a miséria que chegou na família”. Colocou, então, que quando se tem uma primeira infância mais difícil, é preciso ter responsabilidade e consciência de que considerar a redução de danos para o resto da vida faz parte do quadro. Uso ainda o exemplo da drogadição para problematizar a questão, lembrando que nestes casos o passado de afetos e cuidados aumentam as chances da resiliência ativa, mas os danos cerebrais devem ser levados em consideração, e tratados adequadamente. “Nossa medicina e estudos do cérebro estão bastante avançados para ignorarmos isto. Devemos usar todo este avanço para dar qualidade de vida a quem estamos atendendo e cuidando”.

Alice refletiu ainda sobre o que é necessário para fazer um bom trabalho com as crianças e adolescentes separados de suas famílias: os fatores psicológicos, o pele com pele, o abraço, são comprovados como fatores de suma importância no desenvolvimento físico e mental do ser humano, mas seria possível acreditar que apenas isto vai resolver as carências que precisamos enfrentar? Ela acredita que seja ingenuidade e irresponsabilidade pensar assim.

Clarissa pensou em como a situação dos jovens em processo de emancipação nos toca: “acredito ser unânime a sensação de angústia e impotência com a qual nos deparamos quando esses meninos e meninas tem que deixar as instituições. Para serem “desacolhidos”, “emancipados”, “reintegrados”… não importa. Em geral, o caminho é tortuoso e nos coloca a dura questão: será que fizemos bem o nosso trabalho se, ao irem para o “mundo”, o destino desses jovens se revela tão incerto e por vezes dramático? Que condições criamos ou os ajudamos a criar para que escrevam uma história onde integridade física e mental sejam possíveis? Se considerarmos a intensidade e frequência em que a sanidade desses sujeitos foi posta à prova, aliada à vulnerabilidade emocional que caracteriza a adolescência e ainda a ruptura que a saída da instituição pode representar, fica evidente o desafio que este momento representa”.

Clarissa concorda com Alice no risco de “dourar a pílula”, pontuando que é fundamental ter a noção de que diante do passado destes sujeitos nada é fácil. Segundo ela, isto nos manteria conscientes de que “alguns eventos que ainda acontecem nos processos de acolhimento desses jovens são de tal gravidade que não podem mais acontecer e acredito que não permitir isso é tarefa de todos nós, envolvidos nessa realidade”.

Clarissa referiu-se à psicanalista Jenny Aubry, que traz a teoria de que o prognóstico das crianças separadas de seus pais vai depender da combinação de quatro fatores: a idade em que ocorre a separação (quanto menor, pior), a qualidade dos cuidados recebidos até então, o tempo que dura a separação e a qualidade dos cuidados recebidos durante o período da separação (quanto mais individualizado melhor). Uma visão muito similar ao que a Alice nos apresenta. Penso que se esses quatro fatores forem considerados do início ao fim do acolhimento de uma criança, temos condição de um trabalho profilático importante que dará as bases de sustentação do sujeito para o desafio que será enfrentado aos dezoito anos”.

Clarissa deixa a questão do termo utilizado para a saída aos dezoito anos em segundo plano: “Importa mais o que efetivamente FAZEMOS”. Mas coloca-se a favor do termo emancipação, se pensado como processo, algo que vai ser construído: “talvez devêssemos pensar nesses jovens ainda como bebês e tentarmos avaliar o quão “prematuros” são para esse novo nascer que é a saída da instituição. Para sabermos o quanto tempo ainda é preciso mantê-los numa “incubadora” , algo entre o dentro e o fora, uma etapa que demanda acompanhamento permanente, competência profissional, mas sobretudo e sempre: afeto. Já se sabe que depende muito do investimento dos adultos nesses bebês, sua sobrevivência e a capacidade de ficarem prontos para a vida fora do útero. Nesse ponto, o desabafo do Renato me toca muito, pois nos lembra que não podemos nos desinteressar por esses adolescentes nem tomar a tal da “maioridade legal” como uma oportunidade de nos descomprometermos com eles”.

Renato voltou a discussão, dizendo perceber que o medo e a  dúvida, não nos deixa tomar decisões que na sua grande maioria é a menos pior, a que vai provocar o menor dano. “Acredito e tenho fé que vamos conseguir conquistar vitórias, mas isso será possível desde de que paremos de nos contradizer interdisciplinarmente e com isso unirmos em prol de um objetivo em  comum, ou seja, o de inventar formas de autonomia com inserção familiar efetivas. De nada adianta termos Orientações Técnicas, Plano de Convivência Familiar, ECA, Gestão do SUAS, Código Civil se não o estudarmos, se não o praticarmos, se não o conhecermos na profundidade”. 

“Enquanto educador e psicólogo tenho a cada dia mais a certeza de uma missão no mundo, à de provocar o incômodo. É assim que se sai do lugar, que se movimenta, que se cria oportunidades e se encontra alívio. Realizando este trabalho me incomodo todos os dias para que não seja eu parte do comodismo de deixa-los aqui,

A casa lar é lugar, mas também não é…

Por fim 

Incomodemos…”.

Alice alertou-nos para o “perigo claro de considerarmos como motivo dos problemas da autonomia futura, da emancipação serem minimizados à precária escolarização e profissionalização. E, com isso, nos concentrarmos a resolver estas duas questões como as básicas para a resolução da abertura do caminho para a emancipação”. Ela nos chamou a atenção para que estas questões tão importantes estejam aliadas ao afeto, ao apego, à construção das relações de respeito, cuidados, conversas olho no olho e confiança, colocando este como o verdadeiro desafio do reordenamento deste serviços.

Alice fecha a discussão lançando uma importante reflexão: “Nos vejo muito preocupados com os espaços físicos, com o número de acolhidos, com casa-lar ou pequeno porte, cuidador residente ou por plantão de serviço, unir irmãos, etc e tal, e pouco ou nada preocupados com a qualificação das relações, exercitar o respeito, o espaço do outro com o qual estamos convivendo, com as diversidades, as diferenças, o pertencimento ao espaço, ao grupo, o orgulho de sua história pessoal porque já a ressignificou, etc. Este aspecto humano é aquele que considero fundamental no processo de reordenamento e creio estarmos pecando nos planejamentos dos planos políticos-pedagógicos (PPPs) dos serviços de acolhimento”.

“A discussão foi boa, mas não pode ficar só aqui no plano do escrito, não foi. É necessário mais, ir para para a prática diária, em cada intervenção, no sentido de implicação. Não podemos mais ficar parados, estagnados ou como diria a catodora de lixo Estamira, “copiadores e repetidores”, pois é isso que estamos nos tornando, ou seja, repetidores e copiadores de mesmice que não avança.

Como me ensinou uma prezada professora, a psicanalista Roberta Ecleide, Tem coisa na vida que a gente quer; tem coisa na vida que a gente pode e tem coisa na vida que a gente precisa. Nós precisamos melhorar.

Claudia Vidigal também ensina que a história pode começar de um jeito, mas não precisa terminar da mesma forma, aliás pode ser terminada de qualquer forma. Diante isso como vamos prosseguir nesta história de atuação profissional? Da mesma forma?

Provocações, provocações… Lindo título aqui emprestado de programa televisivo no canal Cultura.

Sábio Dr. Savio Bittencourt, promotor de justiça do estado do Rio de Janeiro, também um provocador que metaforicamente me incomodou quando disse que a infância é perecível e se não fizermos algo agora, continuaremos condenando crianças e adolescentes ao esquecimento e longe de suas famílias.

Ah que incomôdo! Que procrastinação profissional, angustiante não? Enfim, contribuir para o “atraso de vida”, expressão utilizada em Minas quando alguém fica empacando a vida do outro, colocando empecilho para a não evolução, é o limite.

E é neste ponto que desejo lançar o desafio de não sermos “empacadores”, atrasos de vida para este pequenos e jovens sujeitos com prioridade absoluta (ECA) para o qual trabalhamos.

Incomodemos…”

Sistematização realizada por Mônica Vidiz e Renato Fonseca: psicólogo e adminstrador de formação, e que se busca enquanto educador. Atualmente, é coordenador de um serviço de acolhimento em Poços de Caldas (MG). É membro do AcolhimentoemRede.

Referências citadas:

Filme: “O Contador de Histórias” (site oficial).

Documentário: “Estamira”, de Marcos Prado (site oficial).

Livro: “Psicanálise das crianças separadas” de Jenny Aubry. Editora: Companhia de Freud.

Projeto Proteger da UFRGS (Universidade Federal de Rio Grande do Sul).

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