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#rolounarede: educador versus educanda?


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A TRANSFERÊNCIA PODE EDUCAR?

Na semana passada, #rolounarede uma intensa e importante discussão, que começou na agressividade de uma adolescente, passou pela transferência e acabou no papel do educador. Tudo começou quando a Selma expôs à rede o conflito que estava acontecendo no serviço de acolhimento em que trabalha: uma adolescente de 15 anos havia agredido uma educadora, mordendo o seu braço. Depois de buscar sem sucesso o Conselho Tutelar e a Guarda Civil Municipal, a solução encontrada foi fazer um Boletim de Ocorrência, exame de corpo delito e solicitar a transferência da adolescente para um outro serviço, com urgência – o que não foi possível dado a falta de vagas em outros serviços. “Agora estou com uma educadora que está faltando no trabalho e com a adolescente, afinal eu não posso deixar a adolescente na rua, mas eu também não posso ficar sem um educador. Lógico, as faltas serão descontadas, a educadora não entende que não conseguimos vaga para a adolescente! Qual a opinião de vocês?”

Glauco logo se posicionou, dizendo que a transferência deve ser pensada apenas em último caso, e propondo algumas reflexões: “O que ela está tentando comunicar, que não consegue dizer com palavras? Qual é a história da adolescente? O que o educador em questão sabe desta história? Qual é a história do educador? Como ele lida afetivamente com os acolhidos?”. Glauco lembra ainda de considerar o clima institucional, mas que trabalhando estas questões pode-se evitar uma transferência indesejável.

Madalena trouxe um contraponto à discussão, dizendo que a lei protege sempre o adolescente; ela defendeu a transferência, para que esta sirva de exemplo para outros adolescentes: “se nada acontecer e a funcionária for embora, a adolescente vai agredir outras pessoas no abrigo”. Madalena sugere que os educadores sejam mais valorizados e ajudados, pela natureza de seu trabalho ser muito difícil, e problematiza: “Você já imaginou se na hora das mordidas essa funcionária instintivamente devolve? Ela vai parar na cadeia, não é?”.

Neste momento, Evoli compartilha que vive uma situação muito parecida no SAICA em que trabalha, desta vez com agressões verbais. Segundo ela, os ânimos estão tensos, e todos estão chegando em seu limite. “Os adolescentes têm que ser responsabilizados por seus atos e nós como seus educadores temos o dever de conduzir a situação com muito diálogo sim, mas principalmente com atitudes efetivas que tragam a consequência para atos infracionais como esses, para que esses jovens se conscientizem e não caiam no sistema carcerário futuramente. A transferência é inevitável para que a impunidade não predomine e distorça o conceito de cidadania, que tanto lutamos para transmitir ao grupo que conduzimos. Amparo psicológico deve ser disponibilizado, mas a superproteção do acolhido deve ser substituído por orientação realista sobre as regras de convivência que regem nossa sociedade”. Evoli lembra de que é necessário esgotar todas as possibilidades e recursos, mas diz que há um momento em que não adianta forçar a continuidade de uma relação que foi totalmente rompida com a violência.

afeto

Renato entra na discussão, dizendo-se preocupado quando um educador desiste de trabalhar com um acolhido: “Se todas as vezes que houver um momento de agressividade dentro dos serviços de acolhimento nós não quisermos ir trabalhar, podemos fechar os serviços”, provoca. Ele defende que quem deseja trabalhar com acolhimento deve estar ciente de que a agressividade fará parte de seu dia-a-dia, e que deve estar preparado para conter fisicamente os acolhidos e não guardar mágoas. Renatoreflete:  “Por trás de cada ato de uma criança, um adolescente, um jovem, há sempre algo a dizer, a desejar. O que esta adolescente quer com este ato? Transferi-la irá resolver o comportamento da adolescente ou irá livrar a equipe de uma trabalho que necessita ser feito? Sugiro uma boa reunião de equipe com a adolescente e “teimar” mais um pouco. Ninguém é agressivo por acaso”.

Alice concorda com Renato, compartilhando de sua preocupação em relação à transferência como solução para os conflitos. “Enfrentar, tentar contextualizar o conflito e procurar em conjunto uma solução. Este é o princípio da Justiça Restaurativa, restaurar e não mais punir apenas.  De Recife, Sonia diz que a discussão chega a ela como um eco. Nota que a transferência “vai mais no sentido de uma reprodução da própria experiência dos adolescentes de não ter lugar, do que mesmo de uma prática educativa. Imaginem se, numa família, quando um filho fizesse algo de abominável aos pais, estes utilizassem a transferência como método de enfrentamento das dificuldades, como ficaria a continuidade e a manutenção dos vínculos, e até mesmo as reflexões sobre o agir? Não é exatamente o fato de continuar juntos e suportar as diversas formas de manifestação dos comportamentos, a resistência diante do não esperado, que fortalece e mantém as pessoas numa construção dialética de sua subjetividade singular? Os adolescentes que frequentam as casas de acolhida, mais do que outros que possuem estabilidade em suas relações pessoais, necessitam que nós, profissionais das casas de acolhida, possamos suportar e conter aquilo que deles ainda não podem (por diversas razões) compartilhar conosco da humanidade em que acreditamos”.

Neto chega para aquecer ainda mais a discussão, iluminando o aspecto humano e emocional dos profissionais: “Quem já trabalhou de educador, no dia-a-dia de um serviço de acolhimento, sabe melhor do que qualquer profissional, de qualquer especialidade, o quanto é difícil lidar com determinadas situações! E às vezes dá vontade de desistir mesmo! O real fala muito mais alto que o superficial”. Mas Renato insiste em seu argumento: o adulto que escolhe trabalhar com isso é quem deve saber dos desafios e aceitá-los o quanto der – “se desistirmos, quem vai olhar por eles?”.

Neste ponto da discussão, os membros referem-se ao ECA, lembrando do estabelecimento de consequências ao adolescente na obrigatoriedade de reparar os danos causados a alguém ou algo. Renato conta um causo:  “Certa vez em uma briga de adolescentes dentro da residência, reunimos a equipe e decidimos a responsabilização:  após ouvirmos ambos os lados, repreender sobre o comportamento inaceitável, foi colocado para as acolhidas que juntas deveriam montar um painel sobre as consequências da violência e apresentar para a equipe em reunião. Tal medida, além de fazer as jovens refletirem, teve como consequências fazer com elas trabalhassem juntas, ou seja, se encarassem de frente sem brigar. Tudo é construção. Demora tempo e tem que ter persistência, o colega que sofreu a agressão precisa ser amparado. Não dá para não responsabilizar quem cometeu a violência. A menina precisa reparar o dano. Este é o desafio”.

Enquanto Neto segue seu argumento, questionando a atitude de apontar os outros profissionais “como se nós especialistas soubéssemos a forma, como se eles também não fossem dotados de emoção”, Mariana vê os dois lados da moeda: “a resposta intempestiva precisa ser refletida para ser remediada. Com todos os prós e contras de qualquer situação. É mais uma que precisa ser pensada e elaborada para que da próxima vez também possa ser um pouquinho diferente. Não acha?”.

Ana Luisa retoma a questão do papel do educador, apontando que muitas vezes os educadores chegam ao serviço de acolhimento através do que lêem num edital, e que é apenas no exercício da função que as situações e circunstâncias deste papel ficam claras. Lembra-nos ainda da importância da formação continuada e da supervisão: “é um papel de suma importância e muito delicado, exige mais do que qualquer espaço de formação teórica pode oferecer. Exige disponibilidade para enfrentar situações impensáveis e aparentemente insuportáveis, como as já descritas. E se estar nesse lugar não é de fato uma escolha, temos mais um fato a compor esse rede intricada que é a relação entre educador e educando. Sabermos teoricamente de todas as peculiaridades que envolvem o acolhimento institucional não nos imuniza para o que vai ser vivenciado, mas talvez sirva de suporte para o que virá”.

Selma fecha a discussão dando notícias sobre o caso: a adolescente continua no abrigo, e seu comportamento está bem melhor; a educadora voltou ao trabalho. As duas mantêm certo distanciamento, mas convivem. A adolescente deseja ser transferida para a mesma região onde a família mora – o que fez a rede iniciar um outro papo, sobre a regionalização dos serviços de acolhimento… Rede forte, essa!

E ficamos por aqui, sem respostas definitivas, no entanto, como bem disse Sonia, fortalecidos para esse trabalho que nos angustia, “pois muitas vezes o abandono e descaso das famílias, das políticas e da sociedade com as crianças e adolescentes dos serviços de acolhimento deixa também os profissionais na mesma condição: tão desamparados quanto. A rede é esse lugar de troca e de compartilhamento que funciona como um espelho”.


E você, o que acha?

  1. DINAMARCIA disse:

    Boa tarde !
    Acompanhei pouco tb essa discussao ,no entanto , essa questao é de fundamental importancia nos espaços de acolhimento,enquanto,territorio de representaçoes socias que marcam mt o lugar dos residentes na sociedade,Quando a companheira coloca a necessidade de pensarmos as manifestaçoes agressivas dos adolescentes e que td açao ou a falta dela provoca uma reaçao,.. reaçao essa manifestada por nossa trajetoria no meio Institucional entre outras.
    Valorizo mt esse espaço

  2. Maria disse:

    A criança ou adolescente quando usa da agressividade, ele está nos promovendo um sinal, um aviso, um alerta, de que algo de muito ” errado” tá acontecendo com ele e o mesmo ” tá proibido em verbalizar”! Primeiro adquirir a confiança desse adolescente ( outra pessoa – pois a que “sofreu ” a agressão não conseguirá nada ) e aos poucos, mas mto aos poucos , ser mto profissional para conseguir fazer com que o adolescente ” ponha pra fora a sua história que tanto o tormenta e que com certeza deve estar sofrendo “” grandes ameças””
    Espero sinceramente ter colaborado, pois trabalhava com cças/adolescente, com o meu amor e profissionalismo, mas me foi tirado INJUSTAMENTE! Mas o que me conforta, e que nesse Brasil , ainda tem pessoas,
    que assim como eu, ama o que faz! Maria da Graça Muliterno de Quadros

  3. Melissa disse:

    Que bela postagem! Que trabalho importante a rede vem construindo. Lamento muito ter acompanhado pouco esta discussão. E confesso que um dos motivos que me afastaram por um período dos emails, e falo de todos os meus emails, foi justamente porque na Casa que coordeno a situação não está nada diferente. Este post contribuiu muito para a reflexão de todos que estão nesta Casa, estou compartilhando. Parabéns. Abraços e Seguimos!!!
    Melissa Terron

    1. Clarissa Temer disse:

      Também tive dificuldade em acompanhar essa discussão que considero fundamental para o serviço de acolhimento. Obrigada, Monica, por nos oferecer um relato objetivo sem perder a riqueza do que rolou!
      Clarissa Temer

    2. Salim Andraus Júnior disse:

      Prezada Mõnica. Achei muito interessante a discussão sobre esse tema e o seu comentário veio acrescentar de maneira substanciosa uma reflexão sobre o nosso papel anto nas instituições de abrigo quanto nas escolas. Um grande abraço e parabéns.

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