#rolounarede: voluntários e doações, dúvidas sobre como e quando contribuir
Mês passado, dia 17 de outubro, começamos uma longa conversa via grupo de discussões do Acontecimento em Rede. A psicóloga e coordenadora de um abrigo na região metropolitana de Curitiba, Kirlaine, mandou um email pedindo ajuda sobre como proceder na relação do voluntário que surge ao abrigo com diferentes pedidos e demandas de ajuda.
Kirlaine conta que algumas pessoas a tem procurado de forma positiva querendo ajudar no abrigo, mas nem sempre a forma é coerente com o que ela acha adequado do papel de um voluntário. “Algumas pessoas me procuram querendo fazer doações para o abrigo ou levar presentes para os acolhidos principalmente em datas festivas. No ato, geralmente querem conhecer a instituição e os acolhidos”, conta. Diz que tem percebido que são pessoas que, de alguma forma, querem fazer uma “obra social”, ou por motivos religiosos ou porque estão numa fase boa da vida e querem retribuir a ajuda.
A psicóloga relata que tem tido mais dificuldades em relação as doações, pois procura atender durante os dias úteis no horário comercial. Contudo, algumas pessoas só podem fazer doação nos fins de semana ou a noite. E daí surgem as dificuldades como: os acolhidos ficam agitados quando chegam as pessoas com as doações, muitas vezes brigam tendo preferência por algum item; as cuidadoras tem dificuldade de manejar a situação e de impor limites a essas pessoas que acabam tomando certa liberdade no abrigo, como por exemplo segurar os bebes no colo, trocar fralda, dar banho; os acolhidos às vezes fazem alguns comentários que muitas vezes consiste em inverdades que as pessoas não sabem julgar e entender que muitos costumam se vitimizar até na intenção de ganhar coisas e até mesmo afeto, colocando-nos muitas vezes numa posição constrangedora.
“Como lidamos com um serviço de alta complexidade que envolvem várias questões e riscos, todo o cuidado é pouco. O município consegue suprir o básico, mas muitas vezes acaba faltando algumas coisas importante principalmente no que tange a recreação dos acolhidos e itens que não são fornecidos como perfume, maquiagem, etc. Diante disso vejo como é importante a ajuda dessas pessoas que auxiliam nessas faltas”, pondera Kirlaine que pede ajuda aos colegas da área e levanta alguns pontos importantes como: aceitar ou não doação de dinheiro; cuidados quanto a tirar fotos dos acolhidos, considerando possível exposição e divulgação (alguns “parceiros” ajudam, mas muitas vezes gostam de divulgar via internet e jornais informativos as práticas e “boas ações” realizadas).
Eliana, do serviço de acolhimento em SP, conta que lá aceitam doações, mas não aceitam trabalho voluntário. “Geralmente as doações de roupas são entregues no portão e sempre informamos que não é permitido entrada de pessoas que não são familiares dos acolhidos”, ressalta. “Há pessoas que fazem doações em datas especiais, nesses casos passamos as políticas de privacidade do serviço, como não poder tirar foto, nem fazer questionamentos sobre o histórico de vida das crianças”. Neste caso específico, essas pessoas entram no serviço para fazer a entrega, mas agendamos data e horário, isso inclui finais de semana e feriados, dependendo da ocasião, nesses casos deixamos os funcionários avisados sobre o que se trata.
Fernanda, assistente social, reforça a política de que doações são entregues na porta; que as crianças não devem ter contato com os doadores pontuais; e conta que os doares fixos têm um cadastro como padrinho de uma criança específica e a doação vai para ela. “E sempre que temos um necessidade fazemos contato pessoalmente, expomos a situação/necessidade e eles providenciam o que a criança ou adolescente precisa e entrega no abrigo para a equipe”.
Alice, psicóloga, de São Paulo, faz uma sugestão sobre o papel do voluntário no abrigo e enfatiza que é importante que o serviço tenha previsto em seu PPP uma política de trabalho com os voluntários em diversas categorias.
Podem dividir em:
1. Voluntários da instituição (pode chamar de padrinho institucional): doam horas profissionais para a instituição como pintar alguma parede, reparos diversos, horta, horas de consultório dentário, psicólogo, médicos, doam roupas, alimentação ou que o serviço solicitar como faltante e outros
2. Voluntários para as crianças (pode chamar de padrinhos institucionais também): horas coletivas para passeios, festas grandes, horas de leitura conjunta, mas não são padrinhos oficiais dessas crianças
3. Voluntários de apadrinhamento afetivo: cadastrados, selecionados, documentados e capacitados inicialmente para conhecerem as crianças e adolescentes com remotas chances de adoção e sem reintegração familiar para apadrinharem. Irão se conhecer em um encontro fora do abrigo e se escolherem por afinidade e empatia. Apadrinharão uma criança ou adolescente com um compromisso de acompanhamento para sempre e não apenas em datas festivas.
4. Voluntários de apadrinhamento profissional: para adolescentes que necessitem de oportunidades de estágios e empregos. Voluntários empresários ou empresas em sua responsabilidade social.
Esses 4 pontos são tidos como referências do NECA. Alice finaliza com uma ponderação. “É preciso questionar e ter cuidado com estas datas, principalmente na chegada de final de ano, onde todos viram solidários e bonzinhos e acabam colocando as crianças e adolescentes no lugar de órfãos abandonados e carentes onde qualquer esmola será bem vinda. São sujeitos de direitos e tem o direito a uma convivência familiar e comunitária de qualidade. A exposição das crianças é proibida por lei. Mas o exagero de não deixarem o voluntário ser um parceiro é um equívoco”.
“Em meses festivos , meus voluntários já sabem que as crianças por uma questão educativa terão somente uma festa e um presente, sendo assim, cria-se uma grande oportunidade também para os voluntários que se juntam para uma confraternização única, passando a se conhecerem”, conta Elma, assistente social.
A psicóloga Mônica Vidiz, de São Paulo, chega ao final da conversa com alguns pontos sobre as dúvidas da Kirlaine.
Mônica fala que é fundamental lembrarmos que o serviço de acolhimento é a CASA das crianças e adolescentes (por mais que seja uma instituição, por mais que seja temporário). É um espaço de privacidade. Qualquer pessoa que venha a frequentar este espaço deve estar situado sobre o que é um serviço de acolhimento e suas especificidades, bem como ter uma função definida (objetivo, dias e horários de atuação, regras da casa, combinados etc) para que não acabe atrapalhando ao invés de ajudar! E é responsabilidade da equipe do serviço garantir isso. “É nossa função dizer não em certas situações: não tirar fotos, não entrar nos quartos, entre outros… E dizer sim quando a proposta de fato interessar tendo em vista a necessidade do serviço e das crianças e adolescentes”, fala.
Voluntários podem ser uma força importante e valiosa para o serviço de acolhimento, respondendo a demandas que a instituição não dá conta, ampliando a rede do serviço e a das próprias crianças e adolescentes, lembrando que um dos princípios colocados pelo ECA é a participação da comunidade local no processo educativo das crianças e adolescentes. Mas é preciso pensar “como e quando” cabe um trabalho voluntário… Uma simples doação, por exemplo, não pode implicar necessariamente em contato com as crianças e adolescentes. “A serviço de que, de quem? Quem aqui já ganhou um monte de presentes de um desconhecido que depois nunca mais encontrou? Qual o valor disto para uma criança?”, questiona Mônica.
A psicóloga destaca dois trechos das Orientações Técnicas a respeito do tema:
“Visitas esporádicas daqueles que não mantêm vínculo significativo, e frequentemente sequer retornam uma segunda vez ao serviço de acolhimento, expõem as crianças e adolescentes à continuidade de vínculos superficiais. Esses podem, inclusive, contribuir para que não aprendam a diferenciar conhecidos de desconhecidos e tenham dificuldades para construir vínculos estáveis e duradouros, essenciais para o seu desenvolvimento” (p.51).
“O contato direto de pessoas da comunidade com crianças e adolescentes em serviços de acolhimento, nas dependências do mesmo, deverá ser precedido de preparação, visando assegurar que não será prejudicial às crianças e adolescentes” (p. 51).